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segunda-feira, 13 de maio de 2013

Teatro Musical nos Acordes Eruditos



Dois meses depois de assistir a uma ópera, o público pelotense teve a oportunidade de assistir a outro espetáculo do gênero na noite de 12 de janeiro de 2012, no Theatro Guarany. Dessa vez, a ópera trazida ao palco foi “Rita”, de Gaetano Donizetti, pela Orquestra Unisinos, sob regência de Evandro Matté, protagonizada por Carla Domingues, Flávio Leite e Homero Velho.

A ópera cômica contou ainda com a direção do grande ator, encenador, dramaturgo e teatrólogo gaúcho Luis Paulo Vasconcelos que imprimiu a sua identidade nesse espetáculo. Também não era de se esperar menos, com a experiência e talento já característicos de Luis Paulo Vasconcelos, o que pudemos observar foi um elenco consciente não apenas das músicas que estavam ali cantando, mas do conteúdo dos textos que estavam dizendo ou expressando de maneira musical. O resultado de uma boa direção de atores se expressa na empatia com o público e na recepção de um espetáculo que ultrapassa apenas o caráter musical, chegando aos espectadores como uma história engraçada que vai envolvendo o público à medida em que vão conhecendo a história de uma mulher surpreendida pelo retorno de um marido que, à princípio, estava morto. Já casada com outro homem, Rita se vê sob o dilema do que fazer com os dois maridos.

O grande destaque da noite, ficou por conta da soprano Carla Domingues. Não paenas por ser conhecida dos pelotenses, uma vez que iniciou os seus primeiros passos na carreira do canto erudito nos palcos dessa cidade. Mas, também, por mostrar uma grande evolução técnica que vem apresentando a cada ano. Porém, não posso deixar de salientar o seu desempenho cênico. A cada espetáculo em que trabalha, Carla se mostra mais confiante e presente em cena. Toda essa evolução se deve ao trabalho que vem sendo desenvolvido ao longo dos anos. Nesse sentido, o que posso dizer é que todo o esforço tem valido à pena. Quem ganha com isso? Os espectadores que se encantam com tamanho talento e aproveitam a sua ida ao teatro para se emocionarem com as histórias que lhes são contadas.

Também não posso deixar de elogiar o trabalho do tenor Flávio Leite e do barítono Homero Velho que conferiram comicidade e ritmo às cenas, divertindo e provocando risadas nos espectadores. Além disso, a iluminação de Fernando Ochôa colaborava para a ambientação cênica, sem comprometer a proposta de encenação. No entanto, não posso deixar de referir que os figurinos com uma forte influência remetendo às pilchas gauchescas me incomodaram um pouco. Naturalmente, compreendo que alguns espetáculos se valem da utilização de vocabulário com termos gauchescos e personagens tipificados como estratégia para gerarem uma identificação fácil e simplista com os espectadores. Entretanto, acredito que não precisamos colocar os personagens de CTG nos palcos para que o público gaúcho se sinta motivado a ir ao teatro.

Essa foi uma noite em que os espectadores viram não apenas os acordes eruditos invadirem o palco, mas, também, a oportunidade de assistirem a uma peça de teatro musical que lhes proporcionou boas risadas. Além disso, gostaria de ressaltar a importância do SESC estar promovendo este tipo de atividade na cidade de Pelotas.

Vagner Vargas
DRT – Ator – 6606 – Crítico Teatral.

Texto publicado em 06/08/2012

E A Ópera Consquista o Teatro


        A tradição de o público ir à ópera com o intuito de assistir não apenas a uma apresentação musical, mas também a um espetáculo teatral se popularizou há séculos. Entretanto, apesar de alguns países europeus manterem essa tradição com a mesma frequência, os espectadores brasileiros não têm tanto o costume de ir ao teatro para assistirem a uma ópera. Será?

                Já começo esse texto instigando o leitor a refletir sobre o assunto, pois comentarei sobre a experiência que observei no dia 11 de novembro de 2011, no Theatro Guarany, em Pelotas/RS, onde foi apresentada a ópera cômica “ La Serva Padrona”, de Giovanni Pergolesi. A história versa sobre as artimanhas que uma empregada faz para conquistar o coração de seu patrão e impedir que ele se case com outra mulher. Com um desenrolar cheio de peripécias engraçadíssimas, a serva consegue atingir o êxito em sua empreitada no final do espetáculo.

                A montagem feita pela Orquestra de Câmara da FUNDARTE, contava com um elenco formado por Rosimari Oliveira, Ricardo Barpp, Juliano Rossi, regência de Antônio Borges-Cunha, direção e concepção cênica da excelente atriz e diretora de teatro Jezebel de Carli. Os que estiveram presentes, observaram um teatro totalmente lotado por um público ansioso por prestigiar uma linguagem cênica com tão poucas montagens nos dias de hoje. Não foram poucas as vezes que ouvi dos espectadores a minha volta, comentários interrogativos sobre como seria uma ópera e que tipo de histórias contava.

                A proposta cênica em questão, quebra com o paradigma de que, para montar uma ópera, há a necessidade de um grande elenco e uma orquestra enorme. Obviamente, que o texto de Pergolesi favorece, pois é composto por poucos personagens. Entretanto, assim como esse, existem muitas óperas que poderiam ser tranquilamente levadas à cena.

                Gostaria de salientar a proposta de encenação que colocou os instrumentistas e regente em cima do palco não apenas como músicos que executam a trilha sonora do espetáculo, mas também com personagens que interagem e fazem parte do contexto cênico. A caracterização, figurinos, maquiagem, iluminação e cenário estavam totalmente integrados à proposta da diretora. Nesse sentido, gostaria de ressaltar o trabalho de Jezebel de Carli que aqui dirige o elenco todo com muito talento, extraindo desses profissionais os melhores resultados cênicos. Além disso, Rosimari, Ricardo e Juliano contagiaram a plateia não apenas pelo seu talento vocal, mas pelo seu carisma e verossimilhança que conferiram aos seus personagens.

                Todo esse trabalho, resultou numa ótima aceitação do público que se divertia às gargalhadas com as peripécias de Serpina, interpretada por Rosimari. Apesar das músicas serem cantadas em outro idioma, a utilização de legendas colaborou para que os espectadores pudessem compreender o desenrolar da história.
                Nessa noite, o que ficou claro é que não é que o público goste ou desgoste de ópera, ele apenas não tem o hábito, desconhece essa linguagem cênica e, na maioria das vezes, não tem acesso a esse tipo de espetáculo. Termino esse texto com a felicidade de ver um teatro lotado e os espectadores saírem satisfeitos com o que acabaram de assistir.

Vagner Vargas
DRT – Ator – 6606 – Crítico Teatral.

Texto publicado em 06/08/2012

Ópera: Teatro Musical


Durante o I Festival Internacional SESC de Música em Pelotas, o público local teve o prazer de assistir à Ópera Bastien e Bastienne, de Mozart (1756-1791), no dia 10 de fevereiro de 2010, com a Orquestra Unissinos, sob a regência de Evandro Matté e participação de Elisa Machado (soprano), Flavio Leite (tenor) e Carlos Rodriguez (baixo). Apesar do calor típico dos meses de verão, o Teatro Guarany teve suas dependências lotadas, com fila de espera para assistirem esse espetáculo.

Mozart compôs essa obra ainda na sua infância, talvez por esse motivo a temática abordada seja bastante ingênua, apesar do evidente talento que o jovem compositor já demonstrava quando a compôs aos 12 anos, baseada na peça de Jean Jacques Rousseau, “Le Devin Du Village”. Mesmo se tratando de uma ópera, resolvi tecer alguns comentários sobre esse espetáculo aqui nesse canal, uma vez que as óperas se consagraram como uma das opções de espetáculos teatrais, durante muitos séculos na Europa. Posteriormente, a visão fragmentadora ocidental separou as óperas da sua visão como espetáculo teatral, apenas considerando-as como espetáculos musicais. No entanto, apesar de muitas pessoas persistirem nesse equívoco ainda nos dias de hoje, analisar as óperas sob esse ponto de vista, deixaria margem para desconsiderar todo o teatro musical contemporâneo como linguagem teatral.

Nesse sentido, ao assistirmos uma ópera, não devemos fixar nossos olhares apenas ao prazer de escutar harmonias instrumentais fantásticas, capazes de criarem climas e imprimir toda atmosfera que as cenas necessitam, ou apenas na virtuose vocal, resultado de muito trabalho, estudo e disciplina dos cantores. Os espetáculos de ópera contém histórias das mais variadas origens e abordagens temáticas, além de muitos deles representarem importantes características tanto do teatro, quanto da arte em geral que estava sendo pensada e produzida no momento que essas obras foram escritas. Por esse motivo, me sinto confortável para analisar ao espetáculo apresentado no mês de fevereiro em Pelotas, pois, muitas vezes, o público em geral analisa apenas os aspectos musicais, se esquecendo do espetáculo teatral performado naquele momento.

A montagem pelotense surpreendeu a todos no que se refere a possibilidade de óperas serem montadas nessa cidade, de maneira simples e competente como essa foi realizada, sem necessitar de cenários gigantescos e e centenas de pessoas no elenco. Obviamente, que a simplicidade da obra favoreceu esse fato. Porém, observamos que, com empenho e boa vontade, outros espetáculos operísticos poderiam ser montados em Pelotas. Além disso, o que muitos poderiam justificar é que não existe público para uma montagem considerada “erudita”. No entanto, isso seria um contrasenso, tendo em vista a lotação do teatro e a intensa procura de ingressos para esse espetáculo, o qual já estava com a lotação esgotada no dia da apresentação. Se existe demanda de público, por que não dispomos de outras óperas nessa cidade?

Outro argumento que poderia ser levantado pelos incansáveis rabugentos anti-cultura, seria o de que esse tipo de espetáculo agrada apenas a um público com formação e hábito em apreciar obras eruditas. Todavia, será que a população em geral não teria o desejo de assistir a uma ópera ou não ficaria satisfeito ao assistir uma obra dessas, caso tivesse possibilidade? Muitas pessoas se respaldam no seu preconceito social justificando que o público em geral gosta apenas de expressões artísticas de apelo fácil, mero entretenimento que não lhes permitam nenhum tipo de amplitude estética. Contudo, não é esse o tipo de comentário que qualquer pessoa que nunca havia assistido a uma ópera faz, após o término de uma apresentação. Àqueles que duvidam, os convido a pagarem um ingresso para ópera a uma pessoa que nunca teve o prazer de prestigiar um espetáculo desse tipo e depois perguntem-na sobre o que achou.

Apesar da boa iniciativa na montagem dessa obra na cidade e a possibilidade dela ser oferecida à população de maneira gratuita, observo que o rigor na performance musical não foi mantido no que se refere à performance teatral. Os cantores eram bons. Seria muita ingenuidade de alguém pensar que um cantor se atreveria a cantar uma ópera caso não tivesse formação pra isso. No entanto, me pareceu que o tenor estava gripado, ou, por algum motivo, parecia estar muito exausto durante a apresentação, o que não chegou a afetar sua performance, já que, apesar da aparente debilidade, conseguiu conduzir toda sua apresentação com profissionalismo e competência. Em alguns momentos, me pareceu que o diretor solicitou à soprano que desviasse a sua emissão para outros locais do palco, desviando o foco de atenção da personagem, o que fazia com que o som se perdesse por alguns instantes, dada à péssima acústica do teatro Guarany. O barítono, mesmo quando estava falando, podia ser escutado em todo o teatro, o que foi facilitado pela sua disposição cênica frontal durante toda a peça.

A meu ver, a concepção de encenação do espetáculo foi um equívoco, uma vez que, mesmo desejando quebrar com alguns paradigmas das montagens tradicionais de óperas e tentando propor uma abordagem diferenciada, a estética adotada se perdia na incoerência. O cenário adotado não era funcional, nem apresentava uma justificativa de sê-lo ao apresentar tantas cadeiras agrupadas de forma desordenada em cima de algumas mesas sem a exploração dessa informação ou desse signo que estava tentando ser explicitado. Assim, o cenário funcionou em alguns momentos apenas como passarela para um cantor mais baixo ficar um pouco acima dos outros, sem relação com a situação que estava ocorrendo na cena naquele momento. Além disso, alguns elementos de cena, apenas surgiram no início do espetáculo para serem retirados posteriormente, sem organicidade nenhuma com as cenas do espetáculo.

O figurino era incoerente tanto em sua proposta – se é que havia alguma – quanto em sua funcionalidade. Não havia uma identidade visual para o espetáculo, o figurino não condizia com as cenas. Em alguns momentos, pareciam fantasias “alternativas” para blocos de rua no carnaval. A iluminação estava precária, mal afinada, sem uma proposta condizente com as situações ocorridas durante o espetáculo. Ao levantar essas situações não quero dizer que uma ópera não possa ter concepções diferentes das tradicionais, muito pelo contrário, acredito que o mundo atual oferece uma gama de informações e possibilidades que agregariam muitos fatores positivos a quem se dispor a propor novos olhares sobre obras tão pouco exploradas. Porém, para que esses aspectos sejam realmente positivos e adequados, necessitam estar coerentes tanto em sua concepção, quanto na sua execução.

Outro ponto crítico da direção se refere à proposta de interpretações repletas de canastrices, o que ao invés de representar um estilo interpretativo, adquiria um sentido ridículo à caracterização dos personagens, prejudicando a atuação dos cantores como intérpretes naquele momento. Esse tipo de equívoco se atribui à direção do espetáculo, uma vez que o olhar afastado permitiria ao diretor evitar que essas situações comprometessem a verossimelhança das personagens. Quando abordo esse aspeto das atuações não estou negando a possibilidade de atuações farsescas, clownescas, melodramáticas, bufônicas, caricatas e etc... Porém, o que observamos foi apenas canastrice na concepção de direção, o que isenta o elenco dessa responsabilidade.

Portanto, apesar de alguns problemas relacionados à concepção de encenação, a montagem dessa obra de Mozart foi muito válida, já que nos mostrou que, em Pelotas, existe material humano de sobra e com talento suficiente para montarem outras óperas e espetáculos com outras abordagens musicais para os mais diferentes públicos. Considero positiva a iniciativa do SESC em oferecer esse tipo de espetáculo de maneira gratuita à população local e espero que essa tenha sido apenas a primeira de muitas outras óperas levadas aos palcos pelotenses de maneira gratuita para democratizar o acesso do público a esse tipo de obra.

Vagner Vargas
DRT – Ator – 6606

Texto publicado em 17/04/2011