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sexta-feira, 31 de maio de 2013

Maturidade, Talento e Ética no Teatro: A Cia Pelotense de Repertório


Era um domingo, 16 de setembro de 2012, chuvoso e frio, típico do final de inverno em Pelotas. Porém, essa não foi a desculpa para manter um expressivo número de pessoas em suas casas assistindo aos enfadonhos programas de televisão exibidos nos canais abertos. Motivados pelo anúncio do novo espetáculo de teatro da Companhia Pelotense de Repertório, muitos espectadores resolveram aproveitar o dia para apreciar essa estreia.

Uma das novidades, se referia ao fato do local da apresentação se dar no João Gilberto Bar, um espaço até então não explorado pelas artes cênicas pelotenses. Este espaço já tradicional e conhecido na região por suas festas e shows musicais, abriu suas portas para um novo filão de mercado: o teatro.  A este fato, devemos saudar o pioneirismo da Cia Pelotense de Repertório por estar abrindo caminho para quiçá um novo espaço fixo para apresentações teatrais em Pelotas. Obviamente que, dada a estrutura do local, os espetáculos teatrais que ali possam vir a ser encenados precisarão ser específicos a esse contexto.

O primeiro fato que chamou a atenção, foi o número de espectadores, pois eles, apesar de em grande número, representam ainda uma pequena parcela de pessoas que possam vir a buscar esse tipo de entretenimento em dias e locais fora dos usuais. O fato da proposta da Companhia ser para apresentar seu espetáculo em bares, já agrega um potencial interessante e atraente ao público, pois, além de irem apreciar uma obra teatral, também podem dispor do conforto e dos serviços que um bar e restaurante possa lhes oferecer e, após a apresentação, confraternizar com o elenco e frequentadores do local.

Esse fato permite que os espectadores se sintam motivados a saírem de suas casas para assistirem a uma peça de teatro, já que sabem que não irão se deslocar a um local geralmente insalubre, onde deverão permanecer horas em pé, no frio e com pouca ventilação, como alguns grupos de teatro crêem como única alternativa para apresentações em espaços “alternativos”. A necessidade de buscar novos locais para manter a arte teatral viva na cidade de Pelotas se faz necessário, uma vez que o único teatro público da cidade permanece fechado há mais de 2 anos pela atual gestão municipal.

O segundo aspecto que me despertou o interesse na plateia, foi a faixa etária dos espectadores. Comumente, costumamos ver adolescentes e adultos jovens nas plateias dos teatros. No entanto, para esse trabalho da Cia Pelotense de Repertório, observei que a maior parte do público era composta por pessoas de meia idade e idosos. Também devemos prestar atenção a essa situação, pois isso mostra além de uma empatia dessas pessoas ao excelente trabalho do grupo de atrizes que estava se apresentando, demonstra ser uma fatia de público pouco explorada pelos artistas de teatro nos dias de hoje.

Nesse dia, a Cia apresentou o Stand up Comedy 4.5 A Toda Potência. O espetáculo, apesar de dialogar com o estilo tradicional das comédias em pé norte americanas, possui um enredo, com momentos em que cada uma das personagens vai contando a sua história, outros onde dialogam entre si e com a plateia. O texto criado por Joice Lima, que também assina a direção, foi criado a partir de situações e histórias pessoais das atrizes e de pessoas que colaboraram para a criação da peça de teatro. Com ótimas sacadas em tom de humor, as atrizes Joice Lima, Ana Alice Muller, Neusa Maria Khun, Márcia Monks e Val Fabres vão revelando as problemáticas e vivências de mulheres que já passaram dos 40 anos.

Talvez, esse seja um dos aspectos que tanto gerou empatia e identificação da plateia que se fez presente. Foi muito prazeroso observar os espectadores se divertindo, gargalhando e comentando com seus amigos sobre as situações que as personagens iam revelando. Temáticas como amor, adultério, solidão, fantasias sexuais e o amadurecimento foram abordadas no tom certo durante a construção dramatúrgica do espetáculo. Gostaria de salientar a ótima sacada do elenco ao aproveitar o espaço onde estavam se apresentando para dialogarem com os espectadores de maneira mais próxima, quebrando as barreiras entre o “espaço do artista” e o “espaço da plateia”.

Além disso, a intimidade, talento, carisma e  entrosamento das atrizes permitia que o enredo fosse se desenvolvendo de uma maneira muito leve. O tempo de comédia estava na medida certa para as situações que as personagens viviam, o que estimulava ótimas gargalhadas ao público presente.

Com certeza, foi um final de domingo muito agradável a todos que foram assistir ao espetáculo 4.5 a Toda Potência. Essa é apenas uma das diversas peças de teatro que a Cia Pelotense de Repertório possui e que costumam ser frequentemente levadas aos palcos.

A maturidade cênica do elenco representa um dos fatores de destaque dessas artistas, não somente pelo respeito que demonstram com os seus espectadores ao oferecerem espetáculos que sejam agradáveis, mas também, por considerarem o conforto e bem estar de quem lhes assiste. Isso, faz com que o público se sinta respeitado e valorizado pelos artistas e não pareça que o artista está fazendo um favor aos espectadores e por isso devam ir a qualquer lugar, com qualquer estrutura para assisti-los.

O público carece de entretenimento e espetáculos de boa qualidade. O número expressivo de pessoas na plateia desse dia ressalta a necessidade da oferta artística que contemple não apenas essa faixa etária, mas também às pessoas que desejam sair de suas casas e viverem momentos agradáveis em contato com a arte.

Portanto, recomendo para quem ainda desconhece os trabalhos da Companhia Pelotense de Repertório, que guarde bem esse nome e procure assistir aos seus espetáculos que constantemente circulam pela região. Além disso, reforço o valor do empenho, ética e respeito que esses artistas matem na criação de suas peças de teatro.

Vagner Vargas
Ator DRT: 6606
Crítico de Teatro

sexta-feira, 17 de maio de 2013

Desabafo de um Ator!




Quanta bobagem!
Quanta besteira!
Quanto despreparo para falar de cultura!

 Estou cansado de tanta gente que se utiliza de um discurso desconexo, desprovido de embasamento para se outorgar o direito de falar em prol de uma categoria. Fazer tipo, ter estilo, misturar palavras, fugindo das normas do idioma, mesmo que seja da maneira comum de organizar sua fala em um contexto coloquial, apenas indica a fragilidade de não se ter conteúdo suficiente para sustentar um discurso. Assim, se permanece no limiar da aparência, no discurso raso e inconsistente.

Negar a história e tradição de um lugar não é apenas um equívoco. Mas, uma burrice!

Negar o valor do patrimônio histórico, seja ele material ou imaterial demonstra que pouco se sabe sobre o conceito mais amplo de cultura. Chegar com olhar arrogante por sobre o que constitui a cultura de um determinado local, menosprezando-a ao ponto de desprezá-la e achar que devemos esquecer todo o contexto que envolve o patrimônio histórico material e imaterial, ressalta a profunda ignorância de quem desconhece a realidade da profissão artística e da importância que determinados aspectos representam para a construção da identidade cultural de um povo.


Negar a importância que o restauro do Theatro Sete de Abril tem para Pelotas é um absurdo!

Menosprezar a importância que não apenas a classe artística dá a esse teatro é um desrespeito com o patrimônio cultural nacional!

Sim, digo isso, pois o Theatro Sete de Abril não é importante apenas para Pelotas, mas para o Brasil com um todo. Não entrarei nem na questão do fato dele representar e exemplificar toda a constituição histórico cultural de um determinado período do nosso país. Mas, ouvir palavras dizendo que temos que esquecer esse teatro - e não é apenas uma pessoa equivocada que vem proferir esses pseudo discursos por aqui – me indigna muito!

Fico indignado, pois esse tipo de discurso pseudo intelectualóide de base rasa, parca e inconsistente reflete o grande despreparo e desconhecimento de algumas pessoas que resolvem se intitular para falar em nome de uma determinada categoria profissional. Para aqueles que desconhecem a realidade do mercado cultural das artes cênicas como um todo, eu vou descrever agora, apenas alguns dos motivos para os quais o Theatro Sete de Abril se faz importante em nossa cidade. De início, pegarei apenas os aspectos mercadológicos. 

Para quem não é profissional das artes cênicas, talvez não saiba, mas a existência de um teatro público em uma cidade, facilita não apenas o fluxo de apresentações de música, teatro, dança, performance e etc... oriundas de fora do município, incluindo-o no circuito de circulação nacional e internacional de espetáculos, pois os preços de aluguel do estabelecimento se tornam atrativos e facilitam a vinda de artistas de fora à cidade.

Com isso, ganham os artistas, por terem mercado de trabalho e a população pela possibilidade de ampliação do seu repertório estético artístico. No entanto, esses benefícios não se direcionam apenas para os artistas de fora da cidade. Aqueles que aqui estão trabalhando, podem dispor de um teatro público, com toda estrutura técnica que lhe propicie boas condições de trabalho, além de fomentar a formação de público local e valorizar a produção artística da cidade.


A localização central do Theatro Sete de Abril facilita o acesso do público que circula, trabalha ou estuda pelo centro da cidade. Ele dispõe de vários locais para o estacionamento de automóveis pelas suas redondezas. Existem vários estabelecimentos alimentícios e demais comércios pelas redondezas, propiciando que os espectadores disponham de uma ampla gama de facilitadores para o acesso às atividades artísticas nesse local. Assim como o fato de, em caso de necessidade, qualquer pessoa rapidamente consegue ter acesso a muitos serviços.

Quem trabalha no mercado artístico, compreende que a localização das casas de espetáculos é muito importante no fomento, estímulo e formação de plateias.

Nesse sentido, não posso deixar de considerar que seja muito ingênuo o pensamento de que todo espectador tenha que ser obrigado a querer assistir experimentalismos artísticos, em espaços inadequados para as características e necessidades de algumas pessoas. Entretanto, também não quero dizer aqui que os artistas ainda inexperientes e jovens não tenham que se entregar às experimentações artísticas e que elas também não devam existir. Refiro isso, pois considero que propostas artísticas em locais não usais oferecem oportunidades estéticas diferenciadas àqueles que desejam ir lá apreciá-las.

Porém, me nego a deixar que discursos ingênuos e fora do contexto profissional da vida artística fiquem indo até à mídia para levantarem bandeiras de suas crenças estéticas peculiares. As pessoas que pretendem trabalhar com arte não podem impor ao público as manifestações estéticas que lhes agradam.

Por outro lado, também acredito que os artistas não devam se curvar às pressões da mídia para que exista um tipo de ditadura das estéticas teatrais, impondo que apenas um tipo de espetáculo seja divulgado e estimulado de ser levado ao público em geral. No entanto, comumente, pessoas que não são artistas, mas tentam trabalhar com arte, costumam impor alternativas ditas experimentais como as únicas válidas de serem levadas aos espectadores. Além disso, a arrogância dessas pessoas não é nada mais, nada menos do que uma auto defesa para tentar ludibriar as fragilidades da sua “não-arte”. Para tanto, costumam vir com discursos prontos, misturando uma infinidade de referenciais teóricos e acadêmicos – na maioria das vezes de maneira equivocada – para dizerem que o que produzem é arte. Sendo essa a única  válida, importante e merecedora de destaque.

Os espectadores não têm que ficar escravos desse tipo de manifestação. Quem diz que os espectadores devem ter a sua disposição apenas espetáculos experimentalistas, desconhece totalmente a realidade da profissão artística. O público tem que ter todas as opções para decidir em quais deseja ir. Mas, negar a importância de teatros no estilo do tipo italiano é uma burrice!


Escrevi aqui esse texto imenso, pois, eu como artista e profissional da arte me nego a deixar que pessoas despreparadas e desconhecedoras da vida artística fiquem indo aos meios de comunicação menosprezar e desconsiderar a relevância que o patrimônio histórico tem para a nossa cidade. Além disso, saliento aqui o meu apoio aos esforços que eu sei que a atual administração está fazendo para que um dos teatros mais bonitos desse país – digo isso, pois já pisei o palco de muitos teatros em diversas cidades – não venha a desabar. Tenho certeza de que o atual governo compreende profundamente o valor que o patrimônio histórico material e imaterial têm para a cultura de um povo.


Agora, para quem trabalha nos meios de comunicação, pesquise mais a quem você está dando a palavra, para ver se essa pessoa realmente compreende e tem vivência na área para saber do que está pretendendo falar. Para quem, na sua ingenuidade e ignorância desconsidera o valor do Theatro Sete de Abril para a cidade de Pelotas, eu apenas lhe digo uma coisa: Vá estudar!
Ator – DRT:6606
Crítico de Teatro

Texto publicado em 17/01/2013



Posfácio de um Desabafo

O texto acima foi escrito em tom de desabafo e indignação após uma entrevista que eu assisti em um programa de TV local, onde uma pessoa totalmente despreparada vinha trazer ao público as suas crenças sobre o teatro na cidade de Pelotas. Já deixei anteriormente escrito o que penso sobre as declarações dessa pessoa, assim como ao despreparo de pessoas que lidam com certas mídias.

Mas, após re ler esse texto, senti a necessidade de comentar outras coisas, pois venho observando nos últimos anos um movimento crescente de desdém à cultura local. Coincidentemente, esse tipo de postura tem vindo de pessoas sem vivência e experiência artística. No entanto, são dotadas de uma soberba extrema que lhes auto confere um pseudo direito de virem menosprezar os valores do patrimônio histórico material e imaterial da cidade de Pelotas.

Obviamente que as pessoas com esse tipo de comportamento estão equivocadas. Entretanto, para os olhos mais atentos, isso apenas reflete o olhar viciado e despreparado de pessoas que desejam ser artistas, desejam ser profissionais das artes cênicas. Porém, o lugar onde sempre habitaram foi a margem dos artistas do palco, os assentos das plateias ou as suas salas de aula.

Diploma não torna ninguém artista. Toda e qualquer tipo de formação, seja ela em espaços formais ou não formais, tem o seu valor por agregar algum tipo de experiência aos indivíduos. No entanto, não é o fato da pessoa ter esse ou aquele título, ter estudado aqui ou ali que a tornará artista.

A prática diária da sua arte, comungando com o seu público é que, ao longo do tempo, lhe constituirá como artista. O artista trabalha para a sua arte. O conforto e segurança de uma sala onde se pode criar “verdades absolutas” – com muitas aspas, pois eles realmente crêem que as possuem – não lhes torna artista. Precisamos diferenciar, antes de mais nada, o artista, daqueles que falam, teorizam, divagam e especulam sobre a carreira artística.

Estar protegido dentro de um templo de teorias e divagações para vez por outra realizar algum tipo de apresentação a um público seleto, justificando todas as suas falhas artísticas por meio de referências bibliográficas está muito distante do que realmente é o trabalho dos atores de verdade. Os verdadeiros atores estão lá, em suas salas de ensaio, teatros, ruas, em busca do seu público e de suas personagens.

Sobre os por menores dessa questão, prefiro deixar as palavras ditas pela grande atriz Fernanda Montenegro nesse vídeo: http://youtu.be/KMQzG1jpavU

Apesar de muitas pessoas perceberem a diferença entre os atores de verdade e aqueles que criam verdades e conceitos sobre o trabalho dos atores, a mídia costuma dar muito espaço a estes últimos, limitando a palavra a quem realmente é trabalhador das artes cênicas. Essa pode estar sendo uma postura inicial dos meios de comunicação aqui na cidade, pois, muitas das pessoas que trabalham neles possuem laços de amizade e/ou parentesco com aqueles que falam sobre as artes cênicas, mas não são realmente artistas da cena.

Estaria essa falácia ocorrendo em outras cidades?
Será que os meios de comunicação também optam por dar a palavra àqueles que não são atores para falarem sobre o ofício de ator, como se assim o fossem?

Não sei se isso acontece em outras cidades. Realmente não sei. Todavia, identifico aqui um grave problema. Ao fornecer a palavra a pessoas que não vivenciam e não têm competência para um certo ofício, os meios de comunicação acabam deixando que pessoas despreparadas levem suas crenças, conceitos e percepções sobre algo que elas não têm competência para fazer, mas criam “verdades” que são levadas ao público como sendo “realidade”.

Essa é uma ótima alternativa para aqueles que não são atores se outorgarem conceitos e definições sobre o trabalho dos profissionais de teatro, pois o que dizem está nos meios de comunicação, lhes conferindo certa credibilidade junto a uma grande parcela de público que não dispõe de repertório estético suficiente para olhar essas informações por meio de uma perspectiva crítica. Por outro lado, os atores de verdade, profissionais das artes cênicas muitas vezes se vêem em apuros tendo que convencer o público de que eles não precisam ser detentores de todos os embasamentos teóricos e acadêmicos para poderem prestigiar os seus trabalhos artísticos.

A cidade de Pelotas tem uma tradição teatral que perdura desde o século XIX. Se hoje existem cursos superiores nas artes cênicas nessa cidade, eles se devem ao fato de que os artistas nunca deixaram de produzir teatro e dança em Pelotas. Os recém chegados à Princesa do Sul sejam eles para trabalharem em algum setor relacionado às artes cênicas ou para buscarem cursos na área, não desembarcam em um município desprovido de referenciais estéticos na área.

Talvez, esse seja o grande erro e problema de algumas pessoas que, equivocadamente, fazem de sua arrogância o conceito de uma “Síndrome de Padre Anchietismo”, pensando que estão vindo catequizar alguns índios. Essas pessoas se utilizam dos seus locais de poder, das suas relações de poder e, acima de tudo, da segurança confortável dos seus locais de trabalho para espraiarem os seus idealismos, preconceitos culturais e equívocos artísticos.

Pelotas não é e nunca foi uma cidade à margem do universo cultural. Se os estrangeiros que aqui chegam para matar a sua fome, por meio do seu trabalho, ou para sanar a sua sede de aprendizado, mantêm um olhar preconceituoso sobre a nossa história, isso reflete o quanto lhes falta aprofundar os estudos sobre a cultura local.

Já cheguei a ouvir declarações de pessoas dizendo que nunca houve teatro fora de Porto Alegre durante o século XIX, que desconheciam nomes como Lobo da Costa ou até mesmo, professor indo à público dizer que João Simões Lopes Neto nunca havia escrito uma peça de teatro. Esses são apenas alguns pequenos episódios. Infelizmente, são pequenos, pois existem “conceitos” piores.

O que isso significa?

Significa a frágil formação de algumas pessoas que vêem à cidade ensinar outras. Significa o total despreparo e falta de vivência como profissionais das artes cênicas para virem ditar suas “verdades”.

As minhas palavras podem transparecer algum tipo de generalização ou banalização da importância de muitas pessoas que aqui chegam. Mas, não é nada disso, um bom leitor saberá discernir e refletir bem sobre o que estou escrevendo.

Agora, traçando uma relação com o texto anterior, o que me assusta é que pessoas como essa que deu a tal entrevista, adquire esse olhar equivocado sobre o patrimônio cultural material e imaterial da cidade de Pelotas, por meio de pessoas que aqui chegam trazendo consigo uma grande carga de arrogância, respaldada em uma base referencial muito frágil. Toda essa percepção equivocada sobre a cultura da cidade, sobre a história do teatro local, de seus atores, dramaturgos, figurinistas, cenógrafos, iluminadores, maquiadores, diretores e demais profissionais das artes cênicas, se deve ao fato de que muitas dessas pessoas ou realmente não estudam e pesquisam sobre o local onde vem trabalhar ou têm medo de que os demais descubram a sua insignificância ante à história daqueles que aqui construíram uma história do teatro pelotense.

Para tanto, a humildade e o respeito se fazem necessários. Mas, essas não são qualidades que os fracos, incompetentes e despreparados possuem. Assumir suas fragilidades pode lhes soar como perda do seu lugar de conforto e poder, já que os demais o perceberão em sua real condição. Porém, na verdade, respeitar a história de um local, a sua cultura e as pessoas que constituíram e constituem ao longo dos tempos, lhe trará um respeito maior perante à sociedade, já que essa pessoa demonstrará que está disposta a se informar, para que, no futuro, possa vir a colaborar efetivamente para a cultura do município.

Mas, será que existe essa disposição?

Aos que recém começam a dar os primeiros passos nas artes cênicas, recomendo que duvidem de tudo o que lhes dizem, saibam perceber quem são os que realmente têm propriedade para falar sobre o labor nas artes cênicas e quem são os seus falsos mestres.

A ingenuidade é irmã da inexperiência.

Somente o tempo lhes trará esse discernimento. Mas, não custa nada lhes chamar atenção para que não comecem a sua caminhada dando passos infalsos ou utilizando sapatos com saltos frágeis que rapidamente se rompem e a queda pode ser definitiva para alguns.

A cada dia mais sinto a necessidade de que os artistas do palco reflitam sobre os motivos que têm afastado os espectadores de suas plateias. A modernização, as inúmeras tecnologias, a violência urbana, o acesso e uma série de questões representam apenas alguns desses motivos. Entretanto, acredito que tanto os artistas, quanto os aspirantes a profissionais das artes cênicas devam estar bem atentos para o que está afugentando o público dos teatros.

Não seria o fato da divulgação de que o espectador para assistir a um determinado espetáculo deva trazer consigo uma bagagem literária imensa para que ele não se sinta burro ante o que lhe apresentam? Não seria o fato do excesso de conceitos e teorismos levados por alguns aos meios de comunicação como sendo necessidade para que as pessoas adentrem aos teatros? Não seria a super valorização e a imposição de que o público tenha que assistir a espetáculos excessivamente experimentalistas?

Onde ficou a relação do ator com o seu público?

Sim, porque teatro se constitui na relação entre aquele que apresenta e aquele que assiste. Fazer teatro sem querer público, não é fazer teatro, é um equívoco de gênese. Se o público deixou de frequentar os espetáculos teatrais, talvez seja pelo fato de que os novatos que chegam ao mercado, trazem consigo conceitos que não refletem a realidade da práxis teatral e da importância do seu diálogo com os espectadores. Ou o que alguns produzem e conceituam como sendo teatro, na realidade não é e o público sabe disso.

Leva-se tempo para discernir e se dar conta do que é teatro de verdade e o que está no plano onírico. O mundo das ideias, deixamos para aqueles que apenas podem habitá-lo. No entanto, o mundo do teatro deve trazer consigo um fator primordial: levar o diálogo e a relação direta com o seu público, da forma mais pura e genuína como deve ser, por meio dos atores, suas histórias e o universo imaginário de seus espectadores.

Portanto, para fechar esse assunto aqui, já que esse blog se destina a trazer textos sobre críticas de espetáculos artísticos, re enfatizo a necessidade de ouvirem novamente às palavras da grande Fernanda Montenegro nesse vídeo: http://youtu.be/KMQzG1jpavU

Vagner Vargas
Apenas um ator.

segunda-feira, 13 de maio de 2013

A Força do Teatro Pelotense




A tradição teatral na cidade de Pelotas sempre obteve respeito e relevância em todo o estado. Os movimentos teatrais pelotenses atingiram o seu apogeu no final da década de 80 e início dos anos 90, diminuindo a sua produção posteriormente.

No momento em que o Brasil vivenciava o final da ditadura militar, o teatro pelotense aparecia como meio de protesto efervescente em evidência na sociedade e mídia locais. Naquela época, o fazer teatral ia além do exercício da profissão, funcionando como mecanismo de reflexão, expressão e educação dos artistas à população. Obviamente, estes movimentos tiveram seu êxito favorecido pelo amplo apoio dos meios de comunicação que divulgavam os artistas locais e dos esforços políticos da época que forneciam estruturas para que este se mantivesse constante. Até a metade da década de 90, haviam muitos festivais de teatro amadores, profissionais e estudantis nesta cidade fomentando a produção teatral desde a infância até a idade adulta. Além disso, Pelotas fazia parte do constante fluxo de turnês de peças de teatro e dança de todo o Brasil, Uruguai, Argentina e outros países, sempre propiciando intercâmbios e trocas de experiências com os artistas locais.

Após este período, Pelotas ainda pôde prestigiar a montagem de grandes espetáculos de dança e de teatro em sua cidade, com muitos artistas locais sendo premiados em diversos festivais no estado, salientando sempre o respeito à qualidade dos artistas pelotenses em todos os locais por onde passavam. Entretanto, com as políticas culturais desenvolvidas em nossa cidade a partir do final da década de 90 até o início do novo século, a produção teatral pelotense decaiu, passando a viver em alguns momentos num estado de ostracismo lastimável. Desta forma, muitos dos artistas locais foram buscar oportunidades em outras cidades e dos que restaram, a luta para combater o saudosismo e trazer os tempos de glória à tona novamente passou a ser sua meta. Alguns espetáculos têm sido montados na cidade, mas dado o afastamento do público, a dificuldade de divulgação nos meios de comunicação local e a ineficiência de processos educativos formadores de público cultural pelotense, as plateias de teatro mostram-se vazias quando o espetáculo em questão não possui artistas de visibilidade televisiva nacional.

Atualmente, Pelotas vive uma retomada dos esforços ao fomento teatral motivados pela criação das faculdades de Teatro e Dança-Teatro da Universidade Federal de Pelotas, nas modalidades de Licenciatura. Apesar disso, não podemos colocar todas as responsabilidades e esperanças na produção universitária, já que existem grupos de teatro e dança com sua produção independente dos objetivos acadêmicos. Saliento isso, pois a retomada da produção teatral pelotense depende de esforços políticos concretos, apoio dos meios de comunicação, investimento do empresariado local, na forma de patrocínios e processos de fomento educativos no intuito de formar plateias desde a infância para que o teatro e a dança sejam vistos como um hábito de aquisição de cultura, lazer, entretenimento, reflexão, protesto, convivência e atividade profissional que emprega diversos trabalhadores. Além disso, com o incentivo para o público freqüentar os teatros não apenas para conhecer os artistas que trabalham em TV, mas para desfrutarem do prazer de verem uma história ser contada em tempo real na sua frente, ao longo de um espetáculo, o teatro pelotense poderá voltar a viver os seus tempos de êxito, como no passado, firmando-se como mercado de trabalho e ferramenta cultural.

Texto publicado em 24/02/2012

Histórias de uma Atriz Negra




Inicialmente, a história do teatro brasileira restringia os negros à plateia, quando podiam pagar, ou a personagens estereotipados, interpretados por atores brancos que maquiavam sua pele para interpretá-los. Obviamente que, envolto a isso, temos todo o contexto social brasileiro de uma época. Porém, foi graças ao pioneirismo de Abdias do Nascimento e Ruth de Souza, com o seu Teatro Experimental do Negro (TEM), criado em 1944, que esse panorama começou a ser modificado.

Em outro texto, já abordei a questão do papel do negro no teatro contemporâneo. Por esse motivo, não me deterei a ela aqui. Entretanto, não podemos esquecer e sempre deixar de lembrar a importância da atriz Ruth de Souza ao teatro brasileiro. Graças a sua coragem, determinação, talento e persistência, ela conseguiu consolidar sua carreira como uma das maiores atrizes brasileiras, além de abrir espaço para que muitas outras mulheres negras pudessem subir aos palcos como profissionais das artes cênicas, sendo respeitadas pela sua competência.

No dia 28 de setembro de 2012, foi apresentado, no Teatro do COP, o espetáculo “No Palco Ruth de Souza”. As atrizes Lucila Clemente e Kaya Rodrigues dividem o palco para contar a história de uma das figuras mais importantes da história recente do Brasil. O espetáculo em tom de memória, perfaz de maneira sintética a trajetória de carreira e vida pessoal de Ruth de Souza. O texto/concepção/direção/trilha sonora de Lucila Clemente e Josiane Acosta surgiu ainda quando as duas jovens atrizes estavam na faculdade de teatro, como seu trabalho de conclusão de curso. Talvez por esse motivo, se observe algumas fragilidades relativas a esses quesitos.

Não me aterei tanto a fazer uma minúcia técnica sobre os problemas existentes no espetáculo, em respeito à personagem tema da história. Entretanto, não posso deixar de comentar que a imaturidade artística das atrizes conferiu uma tonalidade de demasiada leveza à história de uma mulher que, com certeza, deve ter enfrentado e ainda enfrentar os piores preconceitos em relação ao seu percurso pessoal e profissional. Percebo que as atrizes desejaram fazer uma homenagem à Ruth e queriam que a peça tivesse um caráter alegre. No entanto, se fazia necessário prestar um pouco mais de atenção às dificuldades que ela enfrentou ao longo dos anos.

As projeções de vídeos com fotos e cenas de Ruth de Souza foram muito bem exploradas. Na verdade, a força cênica dessa atriz é tão grande que acabava criando um problema a Kaya e Lucila, quando terminavam os vídeos e voltávamos à cena teatral. A comparação acaba sendo inevitável e também não podemos esperar que duas atrizes tão jovens consigam se igualar à experiência de Ruth de Souza. Paradoxalmente, não quero dizer que as atrizes não sejam competentes. Muito pelo contrário, fazem valer a sua jovialidade e energia para segurarem esse espetáculo durante os quase 60 minutos de performance.

Por outro lado, vou citar apenas mais uma situação que se refere ao canto em teatro. Já comentei isso algumas vezes, pois acredito que o canto exige uma série de questões, tais como, técnica vocal, musicalidade, interpretação, emoção e etc... Entretanto, sempre temos que ter o discernimento das diferenças entre atores e cantores. Em um espetáculo de teatro, o ator pode cantar de maneira dissonante, com técnica falha, sem musicalidade, desde que isso esteja dentro de um contexto específico da história e do seu personagem. Caso contrário, apenas salientará a sua desafinação e falta de talento musical.

No caso desse espetáculo, as atrizes foram muito corajosas em cantar à capela em alguns momentos, talvez tentando mostrar um caráter  informal ao momento da peça. No entanto, estando em frente ao público, não há espaço para se utilizar a informalidade como defesa de nossas fragilidades técnicas. Acredito que os problemas observados nos momentos de canto, poderiam ser contornados se as atrizes fossem acompanhadas por músicos tocando ao vivo, já que um playback mecânico exigiria um potencial vocal muito maior.

Apesar de Pelotas ser uma cidade com uma expressiva população negra, não vi muitos negros no teatro naquela noite. Aliás, mesmo o espetáculo sendo gratuito, o teatro não estava nem cheio. Quem perdeu foi o público que deixou de ver uma apresentação teatral que contou a história de uma das atrizes mais importantes desse país.

MSc. Vagner Vargas

DRT – Ator – 6606 – Crítico Teatral.

Texto publicado em 02/10/2012

O Lugar do Negro no Teatro Brasileiro Contemporâneo





Atualmente, com o avanço das discussões sobre a discriminação étnica e das Leis anti-racismo, a população negra começou a reivindicar os seus direitos perante à sociedade brasileira. No entanto, no que se refere ao mercado de trabalho para atores negros, apesar de terem ganho um pouco de visibilidade, esta ainda é ínfima, comparada à proporção de negros no contingente populacional brasileiro.

Embora algumas pessoas justifiquem que estejam vendo mais atores negros nas telenovelas fazendo personagens que não sejam apenas de escravos, motoristas, criminosos e empregadas domésticas, o padrão estético determinado pela grande mídia para a escolha desse elenco se pauta em traços de beleza caucasianos. Essas características são bastante discretas, mas vão desde à tessitura vocal ao formato de nariz, cabelos, tom de pele, tipo físico e etc... Além disso, os personagens costumam vir carregados de uma justificativa étnica para lá estarem, ou seja, se for um médico negro, haverá um conflito em torno da cor de sua pele, não sendo possível que apenas seja um médico que por ventura é negro.

 Outra justificativa que os defensores da mídia podem utilizar, se refere ao fato de que existem muitos atores negros em evidência na televisão brasileira. Porém, comparando a realidade étnica brasileira e a diversidade que se observa nas ruas, você continuará pensando que a proporção de atores negros na TV reflete à realidade brasileira? Ou será apenas uma obrigatoriedade para cumprir uma mera quota de conformismo com as oportunidades igualitárias? Será que os negros não geram audiência e consumo? O que ocorrerá no dia em que os negros resolverem ter a coragem para mudar de canal e buscarem uma programação que realmente os inclua e os trate de maneira igualitária?

No entanto, meu foco aqui não se direciona à TV. Todavia, não podemos falar sobre oportunidades de trabalho para atores negros, sem citarmos as mídias de massa. Nesse sentido, ainda refiro os personagens negros que atualmente aparecem no cinema nacional. As mesmas reflexões que citei anteriormente se referem à sétima arte. Contudo, acredito que, no que tange aos personagens, o cinema brasileiro ainda está um passo atrás, já que grande parte dos filmes brasileiros colocam o negro apenas numa situação marginalizada. Não quero dizer com isso que essa realidade não seja verossímil. Porém, será que é a única?

Quando falamos em teatro, o ponto de análise se altera, pois as imposições midiáticas não chegam a afetar a grande produção teatral. Entretanto, no que se refere ao teatro comercial, em especial àquele produzido no grande eixo Rio-São Paulo, as normatizações estéticas da televisão costumam determinar as escolhas de elenco. Apesar disso, devido ao caráter democrático que o teatro costuma apresentar, temos a possibilidade de ver um contingente maior de atores negros em cena. Mesmo assim, a proporção de atores brancos costuma ser maior.

Essa situação nos leva a refletir sobre quais motivos tornam esse fato uma realidade. Obviamente, não podemos deixar de ter em mente que há séculos a população negra sofre um processo de discriminação, exclusão e marginalização étnica em nossa sociedade. Além disso, apenas há algumas décadas estão ocorrendo avanços civis sobre esse assunto. Nesse sentido, devemos sempre ponderar sobre as oportunidades num sentido global, uma vez que envolvem aspectos que não se relacionam somente ao mercado de trabalho artístico, mas também à educação, moradia, saneamento e etc... Muitas pessoas podem contestar dizendo que esses fatores não estão diretamente relacionados ao desempenho profissional no teatro. Todavia, devemos ponderar que, do nosso confortável ponto de análise, as condições sociais podem ser as mesmas para quaisquer etnias. No entanto, ao colocarmos o advento histórico nessa balança, será que não teríamos um lado étnico mais sobrecarregado?

Desse modo, a luta pela sobrevivência e pelo espaço igualitário na sociedade acaba levando os negros a buscarem alternativas mais imediatas de subsistência. Além disso, as oportunidades artísticas costumam estar localizadas em pontos sociais distantes da realidade dessas pessoas não somente no aspecto geográfico, como também de identificação. Talvez os motivos que expliquem o pouco contingente de atores negros nos palcos brasileiros, em relação à proporção populacional, estejam ligados a esses fatores.

Sob esse ponto de vista, também gostaria de salientar a escassez de uma produção dramatúrgica voltada ao teatro que contemple temas relacionados à etnia negra que não sejam aqueles que falem apenas de sua marginalização social, escravidão ou as mesmas abordagens dadas pela TV e pelo cinema nacional. Da mesma forma que os gregos e outros tantos povos souberam transformar suas mitologias em teatro, a mitologia brasileira, de origem africana também deveria receber esse tratamento.

Obviamente, que os fatos históricos, a colonização brasileira e os conceitos ainda arraigados em princípios de uma moralidade religiosa dos tempos em que o Brasil ainda não era um estado laico segundo à Lei, abarcaram todo um processo de opressão para manter a cultura negra longe dos limites história oral. Nesse sentido, acredito que essas histórias ainda precisam ser escritas e firmadas na dramaturgia teatral brasileira.

Porém, gostaria de salientar que esse discurso não está demarcando o ramo de atuação dos negros para espetáculos que abordem suas origens étnicas e  religiosas. Muito pelo contrário, acredito que esse pode ser um dos caminhos de identificação para atrair uma fatia de público que costuma estar à margem das histórias que lhes são apresentadas e a partir daí, quem sabe, oportunizar-lhes uma perspectiva de identificação e auto-estima. Além disso, também acredito que os atores negros devam lutar pelo seu espaço para fazerem personagens que não venham com a descrição “negro” no texto original, pois se a característica étnica não é o conflito principal daquele personagem em determinada história, não existem limitações para que apenas as pessoas de origem caucasiana tenham o direito de representá-los.

Contudo, não podemos deixar de ponderar sobre o aspecto de que sempre é colocado sobre os ombros da população negra a responsabilidade por lutarem pelos seus direitos e espaços na sociedade. Esse ponto de vista é confortável e cômodo aos indivíduos de outras origens étnicas, uma vez que, numa análise simplista, não precisariam alterar em nada suas condutas sociais e profissionais para permitirem a igualdade de direitos e oportunidades para todos os cidadãos. Desse modo, reitero o foco desse texto ao mercado teatral para os atores negros no Brasil, uma vez que não devemos jogar a responsabilidade da pouca proporção de atores negros nos palcos, apenas ao fato deles não lutarem pelo seu espaço nesse mercado de trabalho. Essa seria uma visão alienada e ingênua. Cabe sim aos espectadores negros exigirem sua retratação nos palcos, aos atores negros terem o seu devido espaço, mas acima de tudo, aos artistas que trabalham nesse mercado abrirem as oportunidades para que os personagens sejam tratados apenas como seres humanos. Sendo assim, a origem étnica do profissional que o interpretará será desconsiderada, já que o personagem será tratado pela sua essência humana.

No entanto, não quero que as duas últimas frases do parágrafo anterior sejam distorcidas, uma vez que essa foi a justificativa para que durante muitos anos atores brancos maquiassem a sua pele com o intuito de interpretarem personagens negros. Quando falo em personagens negros, me refiro a histórias em que o contexto étnico dessa personagem se torna a essência de seu mote conflitual. Realmente, o palco é o lugar mais democrático, onde todos artistas podem ser quem a história precisar que eles sejam. Mas, isso não quer dizer que esse argumento se torne uma justificativa para enfatizar o processo de exclusão social de raiz étnica que temos em nosso país. Sendo assim, quando o foco da existência daquele personagem não for o conflito social gerado em função da sua etnia, não haveria justificativa para que os personagens fossem pensados numa lógica caucasiana. Com isso, enfatizo que a escassez de atores negros nos palcos também se deve à necessidade de mudança na perspectiva que os próprios artistas do teatro têm em relação aos personagens das peças de teatro.

Portanto, gostaria de finalizar esse texto, em que levantei algumas reflexões sobre o lugar do negro no teatro brasileiro contemporâneo, reiterando a necessidade de que sua história e tradições sejam tradas com o respeito e a importância que merecem, sem olhar vertical determinado pela a cultura caucasiana nos palcos, TV e cinemas do Brasil. Além disso, também saliento o fato de que os negros precisam fazer valer o seu valor como geradores de consumo, audiência e presença na sociedade. Dessa forma, acredito que a ponderação sobre os fatos aqui levantados possam ser apenas alguns poucos pontos de vista que nos levem a refletir sobre número de atores negros que vemos nos palcos brasileiros.

 Vagner Vargas
DRT – Ator – 6606 – Crítico Teatral.

Texto publicado em 02/10/2012

Hibridismo, Ousadia e Arte Tendo o Teatro como Cenário e Contexto




            No dia 14 de setembro de 2012, os atores Ana Laura Barros Paiva, Lumilan Noda, Tai Fernandes e Tatiana Duarte, apresentaram o espetáculo “Olhar do Outro” em frente ao Theatro Sete de Abril. Já que o único teatro público da cidade de Pelotas está fechado, o grupo aproveitou a oportunidade para levar o seu trabalho para a rua, utilizando a fachada do prédio como seu cenário e o fazer artístico como mote de suas discussões.

Tendo o texto “A Gaivota”, de Anton Tchekhov, como referencial inicial de pesquisa, a diretora Alexandra Dias nos propõe um espetáculo que dialoga com outras linguagens artísticas, rompendo com as barreiras limitantes entre as diversas artes. Além do texto do escritor russo, o grupo utilizou textos de Rubens Figueiredo e Robert Patrick para compor a dramaturgia do espetáculo.  Além disso, a história era costurada por momentos, relatos e vivências pessoais de cada ator, dialogando com as passagens textuais dessas obras literárias, com o intuito de refletirem sobre o fazer teatral e a condição do artista no mundo contemporâneo.

Com um caráter de intervenção cênica no espaço público da cidade, o grupo propõe aos espectadores, além de outras abordagens, a discussão sobre qual o papel e o lugar do ator na sociedade. Essas reflexões acabavam sendo potencializadas pelo fato de estarmos assistindo a todos esses fatos, tendo como cenário de fundo um belo teatro, construído no século XIX, que hoje permanece fechado e representando o descaso que as artes cênicas sofrem nas políticas atuais.

O trabalho que os atores tiveram em se expor da maneira corajosa como fizeram, desvelando suas fraquezas pessoais, propiciou aos espectadores uma aproximação de histórias de vida que se identificam com os conflitos dos personagens literários. Esse tipo de diálogo entre ficção e realidade, relatos pessoais e textos dramatúrgicos vem sendo utilizado em diversos trabalhos artísticos que desejam desassossegar o espectador do seu olhar viciado nas estruturas formais e tradicionais das artes. Essas propostas além de oferecem ao público uma relação mais próxima com o contexto representado, lhe fomentam uma percepção diferenciada, um outro modo de encarar e se relacionar com os mais diversos tipos de situações que acontecem a sua volta.

 Nesse sentido, muitas vezes um espetáculo não precisa de palavras e expressões textuais, uma vez que suas imagens podem dar vazão a uma série de abordagens e os artistas não necessitam delimitá-las dentro de um contexto definido. Por esse motivo, a opção pode ser pela exposição dessas imagens e deixá-las para que o público vá compondo os espaços lacunares, conforme é tocado naquele momento.

Sendo assim, o trabalho em questão nos expôs uma série de imagens lindas, não apenas nas projeções, mas também na movimentação dos atores e na maneira como eles se relacionavam com todos os signos que estavam ali sendo expostos. Desse modo, não posso deixar de elogiar a maneira como o grupo se apropriou e re-significou alguns quadros surrealistas, do pintor belga René Magritte, brindando a plateia com outras possibilidades de leituras daquelas obras e do peso que essas imagens imprimiam no contexto do espetáculo.

 O figurino elaborado por Larissa Martins vinha muito ao encontro do contexto da peça do dramaturgo russo. Mas, além disso, os trajes extremamente belos, elegantes e bem acabados já nos chamavam a atenção no início do espetáculo quando os atores vinham chegando à esplanada em frente ao teatro. Nesse momento, poderíamos traçar relações sobre a tradição histórica que a população dessa cidade tinha em se vestir bem para ir ao teatro durante o século XIX e início do século XX. Porém, agora, essas pessoas disporiam apenas do espaço ao ar livre para apreciar o espetáculo. Apesar dessa relação textual e da percepção crítica sobre a situação, os figurinos também dialogavam com as obras do artista belga utilizado como referência e estavam extremamente adaptados à funcionalidade cênica de que havia necessidade.

A trilha sonora original e os vídeos de Thiago Rodeghiero compunham um ambiente no qual, ao mesmo tempo em que intervinham na paisagem urbana com as projeções, traziam o foco cênico para as discussões que os atores estavam propondo. A polifonia de informações da performance era sublinhada e ressaltada pelas projeções muito pertinentes que ajudavam a ampliar o leque de leitura das imagens apresentadas. Além disso, o crédito e êxito das projeções também se devem ao fato de fugirem do lugar comum e simplista que vemos em algumas peças de teatro. A utilização de filmagem e projeção ao vivo também foi muito interessante para os espectadores observarem o diálogo entre duas linguagens, enquanto a atriz Tatiana Duarte apresentava um dos textos mais lindos e difíceis de “A Gaivota”.

A maquiagem utilizada pelo grupo foi muito adequada ao contexto da concepção de encenação e à luminosidade que teriam nessa apresentação na rua. A iluminação de Juliano Bonh Gass fez mágica e mostrou muita criatividade para adaptar os recursos técnicos para um local ao ar livre que não dispõe de estrutura técnica para apresentações teatrais à noite. Nesse sentido, todos os recursos foram muito bem utilizados colaborando para a ambientação e contexto cênico.

O elenco inteiro está de parabéns pelas suas atuações. Mesmo sendo atores tão jovens, trabalhando em um espetáculo em que a performance se direciona à multiplicidade de imagens que compõem à plasticidade cênica, conseguiram trazer seus universos pessoais para a identificação dos conflitos das personagens daquelas histórias. Além disso, apesar das adversidades, os atores conseguiram segurar o espetáculo, mesmo sofrendo interferências desagradáveis de delinquentes que tentaram prejudicar a apresentação.

Mais uma vez, sou obrigado a falar da falta de educação de algumas pessoas em relação aos espetáculos que são apresentados em Pelotas. Nesse caso, por ser uma performance ao ar livre, os artistas já sabem que estarão expostos a quaisquer adversidades que possam vir a acontecer. Entretanto, isso não justifica que algumas pessoas se julguem donas do espaço público e se outorguem o direito de agredirem não apenas quem está se apresentando, como também quem está assistindo àquela obra.

O fato em questão se refere a mais de uma dúzia de jovens que estavam naquele local e não queriam permitir que houvesse uma apresentação teatral naquele espaço, pois desejavam utilizá-lo para dançar e cantar rap e hip hop. Em primeiro lugar, a Praça Cel. Pedro Osório é um espaço imenso e essas pessoas poderiam ter ido se expressar em outro ponto da praça, uma vez que o grupo de atores possuía liberação da prefeitura para apresentar o espetáculo naquele local, ou, simplesmente, se sentarem e apreciarem o evento. Além disso, a quantidade de bebidas alcoólicas que aqueles jovens faziam questão de mostrar que estavam ingerindo, não nos ilustrava que o seu intuito era apenas de expressar as suas músicas.

Não foram poucas as vezes que eles gritaram e tentaram atrapalhar a encenação, dizendo que queriam rap e se utilizavam do fato desse tipo de expressão estar associada às pessoas de classe social menos favorecida para tentarem intimidar a plateia a não reclamar. Acredito que seja muito fácil e cômodo se colocar no lugar e no papel de injustiçado quando não se respeita o espaço dos outros. Pela quantidade de bebidas alcoólicas que passavam de mão em mão e as dimensões espaciais da praça, também não acredito que aqueles jovens estivessem apenas com o intuito de se relacionarem com a arte. Antes de tudo, se desejam ter o seu espaço, precisam saber respeitar o olhar do outro em querer desfrutar de outras expressões artísticas.

Apesar de a plateia ter presenteado esses jovens com a indiferença, para que pudessem assistir ao espetáculo, financiado pelo poder público, acredito que os espectadores pelotenses não possam continuar sendo expostos a esse tipo de situação nas apresentações ao ar livre. Sendo assim, saliento o meu protesto quanto à ausência de guardas municipais e/ou da brigada militar durante o evento.

Essa interferência foi tirada de letra pelo grupo de artistas e acabou se tornando apenas mais um ruído desagradável que vinha de fora do ambiente cênico. Mas, em nada afetaram à qualidade do trabalho que ali foi apresentado.

Portanto, considero que a proposta trazida em “Olhar do Outro” seja de grande valia para as discussões do papel dos atores na nossa cidade e da maneira como as políticas culturais não vêem tendo a devida importância nesse município. Nesse sentido, espero que o grupo ainda possa apresentar esse espetáculo, de maneira segura, em outras ocasiões para que mais pessoas possam ter contato com esse diálogo híbrido entre as artes.

 Vagner Vargas
DRT – Ator – 6606 – Crítico Teatral.

Texto publicado em 21/09/2012

Texto Alemão Trazido ao Palco pela Nova Cena Teatral Gaúcha




Na medida em que o tempo passa, além da tecnologia avançar, o modo como nos relacionamos com o mundo vai acompanhando essas alterações. Além da velocidade de informações a que somos submetidos diariamente, os valores que lhes atribuímos, geralmente, acabam sendo direcionados pelas lógicas de mercado, mídia e etc...

Um dos assuntos relacionados a isso, se refere à excessiva importância que as pessoas dão à aparência física. Obviamente que, aí está impregnada toda uma ideologia que escraviza os consumidores a sentirem-se inferiorizados por nunca atingirem um ideal de perfeição estética, tendo, assim, que vir a comprar fórmulas milagrosas, as quais lhes trarão o tão sonhado sucesso estético.

Problemáticas como essas podem ser observados no texto do escritor alemão Marius Von Mayenburg, autor da peça “O Feio”, apresentada dia 17 de agosto de 2012, no Teatro do COP, pela Ato Cia Cênica, de Porto Alegre/RS. Nesse espetáculo, o autor questiona os significados da alteridade inserida nas lógicas de mercado contemporâneo, satirizando a sociedade e refletindo sobre a individualidade funcionando como obstáculo pra se obter sucesso nos dias de hoje. Nessa trama, o protagonista recorre a uma cirurgia plástica com o intuito de mudar a sua aparência totalmente, já que os outros lhe consideravam feio. Após a cirurgia, o personagem se torna esteticamente belo aos olhos dos outros e essa “fórmula da beleza” um atrativo de lucro para o cirurgião plástico que passa a produzir “belos” em série.

O dramaturgo dessa peça costuma trabalhar juntamente com o encenador Thomas Ostemeier e suas propostas de diálogo cênico com as mais diferentes expressões artísticas. Facilmente encontrávamos influências do encenador alemão na concepção cênica da diretora Mirah Laline. O que foi apresentado no palco do Teatro do COP nos mostrava um forte trabalho de marcação de cena, com ações muito precisas, coesas dentro da proposta estética, em um ritmo extremamente acelerado. O fato do espetáculo ser conduzido em uma cadência veloz não o tornava perdido e vazio. Muito pelo contrário, mesmo com toda a velocidade de informações, a diretora conseguiu imprimir algumas nuances de ritmo durante a peça, com isso, o espectador não conseguia se afastar do que estava sendo contado, nem tampouco se sentir incomodado com o bombardeio de situações que iam ocorrendo.

Um espetáculo muito bem dirigido e concebido, assim podemos definir “O Feio”. Parte desse mérito também está reservado à sintonia cênica do elenco formado por Danuta Zaghetto, Marcelo Mertins, Paulo Roberto Farias e Rossendo Rodrigues. Não há o que se possa pontuar na atuação dos atores, a não ser elogios. O texto da peça não é fácil de ser dito, são muitas informações, com subtextos que oferecem várias possibilidades reflexivas. Para que as mensagens consigam atingir aos espectadores da maneira como se deseja, devem ser passadas num time correto e isso o elenco conseguiu de sobra. Não vou sublinhar uma ou outra performance dos atores, pois o elenco está nivelado, todos brilham ao mesmo tempo, sem haver destaques, o que propicia um espetáculo que atinge o sucesso no todo.

O trabalho que os atores levam à cena não é nada fácil. Aliás, o que vemos é fruto de um árduo e dedicado preparo físico. Não apenas no vigor e dinamismo corpóreo que o elenco mostra em cena, mas também a forma como dizem os textos. Apesar do ritmo ser acelerado, a boa dicção e a compreensão do que está sendo dito favorece o resultado estético do espetáculo. Da maneira como escrevo, essas ações podem até parecer simples, mas não o são. Para obtermos um resultado desse nível em cena, necessitamos de muito preparo, disciplina e, acima de tudo, trabalho. O elenco composto por atores bastante jovens soube utilizar a sua energia e disponibilidade para atribuir todos os adjetivos positivos que esse espetáculo merece.

Os figurinos de Marina Kerber estavam muito de acordo com a proposta estética da peça, além de contribuírem para a criação de uma identidade visual do espetáculo. Além disso, a concepção de iluminação de Lucca Simas e Luciana Tondo, esta última também responsável pela operação de luz, criou um ambiente sombrio, pesado e taciturno como a problemática do protagonista exigiria. Ademais, a maneira frenética como a luz dialoga com o ritmo corporal dos atores lhe atribui um papel essencial na concepção de dramaturgia cênica.

A trilha sonora pesquisada pela diretora Mirah Laline e operada por Manu Goulart continha várias músicas de hard rockalemão muito pertinentes ao espetáculo. Além de outras canções que dialogavam com o texto e propunham um distanciamento crítico e bem humorado em alguns momentos.

Também não posso deixar de elogiar a direção e direção de fotografia dos vídeos criados por João de Queiróz e Maurício Casiraghi, este último também responsável pela projeção deles durante o espetáculo. A projeção de vídeos vem sendo muito utilizada em alguns espetáculos contemporâneos, o que pode vir a funcionar como um colorido a mais na criação cênica. Entretanto, esse recurso deve ser usado com cautela para não ficar gratuito, ou apenas reforçando o que se está fazendo ao vivo, ele deve dialogar dinamicamente com a cena, senão perde o sentido.

Porém, a maneira como foi utilizado no espetáculo “O Feio”, estava muito adequada, foi um acerto da direção. Além do fato dos vídeos terem sido muito bem produzidos, eles ofereciam ao espectador um diálogo com o universo interno do protagonista. Não posso deixar de destacar o momento em que o personagem sente a vontade de pular do prédio. A sincronicidade entre o ator e o vídeo foi ótima, um profundo diálogo entre cinema e teatro, dando um aspecto de grande realidade, chamando muito a atenção do público que não deixou de se manifestar positivamente durante essa cena.

Portanto, considero que o espetáculo “O Feio” foi um grande presente ao público pelotense não apenas pela sua apreciação estética, mas também por vermos artistas tão jovens já despontando em um trabalho muito bem realizado. Além disso, não posso deixar de render louvores à iniciativa do SESC em oferecer ao público um panorama da produção cênica universitária do Rio Grande do Sul.

 Vagner Vargas
DRT – Ator – 6606 – Crítico Teatral.

Texto publicado em 20/08/2012