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sexta-feira, 31 de maio de 2013

Mais Um Excelente Trabalho de Valter Sobreiro Jr e do Teatro Escola de Pelotas Volta aos Palcos


Os nomes Valter Sobreiro Jr. e Teatro Escola de Pelotas falam por si só e já trazem uma qualidade intrínseca agregada a quaisquer trabalhos que venham a desempenhar. No dia 19 de dezembro de 2012, não foi diferente. Quando começou a apresentação do espetáculo Entremez da Rainha Dona Maria, a Louca, e seu Fiel Criado Belisário, na Bibliotheca Pública Pelotense, a plateia presente já sabia que se tratava de um excelente espetáculo.

O texto da peça, escrita e dirigida por Valter Sobreiro Jr., conta uma história que se passa em um lixão isolado, à beira de um rio poluído, onde uma mulher, afetada pela loucura, vive a fantasia de ser D. Maria I, rainha de Portugal. A personagem vive em seu castelo de faz de conta, com Belisário, um adolescente mantido aos seus serviços como se vivessem no século XVIII. O mundo fantasioso de D. Maria I é confrontado pela chegada de um bebê ao lixão e, logo em seguida, quando a mãe dele, uma jovem prostituta vem buscá-lo. A partir daí, se desenrola a trama de acontecimentos do espetáculo.

O texto mantém a qualidade e identidade dramatúrgica que Valter costuma imprimir em seus trabalhos. Os diálogos muito bem construídos, alinhavam uma trama coesa, onde nada está sobrando ou fora de lugar. A maneira inteligente como Valter organiza a história, leva os espectadores a refletir sobre a solidão, depressão e a necessidade que algumas pessoas têm em criar desculpas para não encararem a dura realidade de suas vidas. Claro que, no caso da protagonista, esses limites são ultrapassados, confundindo-se entre loucura e sanidade, crueldade e doçura.

Valter Sobreiro Jr. Também assina a cenografia, iluminação e direção do espetáculo. A cenografia simples, porém extremamente funcional e de acordo com a proposta, consegue colaborar para a construção do ambiente desfrutado por D. Maria I e Belisário. De início, ficamos com a impressão de que a peça se passa em algum lugar devastado, lembrando as ambientações backetinianas, onde transitam personagens destruídos pela sua dura condição, sem esperanças para grandes mudanças em suas vidas.

A iluminação compõe uma estrutura dramatúrgica em consonância com os diversos momentos que cada personagem vai enfrentando. Apesar da pouca disponibilidade técnica para iluminação cênica no local, Valter soube potencializar os recursos disponíveis, sem afetar o desenvolvimento das cenas. Além disso, tanto a operação de luz, quanto a paleta de cores utilizadas colaborava para a construção dos momentos da história que transitavam entre os campos onírico, real, insano, assim como também ajudavam na transição das cenas.

A maneira escolhida para realizar as trocas de cenas, assim como a contra regragem encenada por Juliano Gass e Ana Laura Paiva foi muito adequada à proposta. Ambos os atores entravam e saíam de cena, preenchendo e potencializando alguns momentos da história. Além disso, a trilha sonora composta por Leonardo Oxley além de bela, envolvia os espectadores no universo e nos conflitos de cada personagem de maneira muito delicada.

Um capítulo à parte, se refere aos figurinos concebidos por Barthira Franco. Essa peça pode ser um típico exemplo para as pessoas que desejam fazer figurinos para teatro, sobre como adaptar materiais que permitam intensificar a caracterização das personagens de acordo com a proposta do espetáculo. Os figurinos de D. Maria I e Belisário refletem o interior dessas pessoas degradadas por uma vida que abandonou o plano real e criou o seu próprio mundo imaginário.

As texturas, cores e desenhos das vestimentas construíam um ótimo exemplo de como se conceber o visagismo para um espetáculo de teatro. Além disso, os figurinos dos outros personagens contrapondo a realidade da jovem prostituta com a ficção da contra-regragem, traziam os contra pontos perfeitos para fecharem com a concepção de encenação adotada. Este espetáculo é apenas mais um exemplo da qualidade do trabalho de Barthira Franco como figurinista. Isso, sem falar no seu trabalho como atriz, encenadora, maquiadora, cenógrafa e, atualmente, como diretora do Teatro Escola de Pelotas.

O trabalho do ator Sérgio Peres, que deu vida à personagem D. Maria I, merece todos os elogios. A opção de uma atuação não realista e estilizada pode ser a premissa para o desabamento de um espetáculo, quando feita por um ator despreparado. O que não é o caso do experiente e talentoso Sérgio Peres, que assumiu a difícil tarefa de manter essa opção estilística durante todo o espetáculo. Já nas primeiras frases da peça, nós esquecemos completamente de que se trata de um ator interpretando um personagem feminino. Sérgio conseguiu fugir de todas as armadilhas simplistas da estereotipação de uma personagem mulher, interpretada por um homem e ele ainda vai além, conseguindo imprimir todas as nuances e facetas que a personagem necessita à medida que vai revelando sua história à plateia.

Visivelmente, observamos o quanto a construção dessa personagem exige não apenas da sensibilidade de Sérgio Peres, mas também do seu físico. Inclusive, o trabalho corporal e estética adotadas por ele para construir tal personagem, me lembraram as referências trazidas no filme Stage Beauty (2004), quando falam sobre o fato dos atores até o século XVII interpretarem personagens femininas e as suas “Five Positions of Feminine Subjugation”. Sérgio, com toda a sua experiência nos palcos, consegue envolver os espectadores nos dramas, traumas e na loucura da sua personagem na medida certa.

O ator Bernardo Pawlak, que interpreta o jovem Belisário, costura a história fornecendo características de doçura, ingenuidade, leveza e sensibilidade para o seu personagem. Bernardo, apesar da pouca experiência nos palcos, não deixa nada a desejar frente ao experiente Sérgio Peres. Muito pelo contrário, Bernardo consegue transitar pelos momentos em que é “escada” e nos momentos em que seu personagem traz a cena para si na medida certa.

Já a experiente atriz Roberta Rangel, quando entra em cena, traz uma personagem que irá desestabilizar as relações já construídas na história. Roberta consegue imprimir verdade cênica a sua personagem, sem a necessidade de maiores esforços. Sua personagem, que é uma jovem prostituta, poderia ser uma fácil armadilha para atrizes inexperientes, caindo em estereótipos ou puxando para características televisivas e pouco inteligentes. Porém, Roberta vai mais a fundo, compreendendo os conflitos de sua personagem e a sua condição naquela história. Roberta sensibiliza os espectadores no drama de sua personagem de maneira muito doce e delicada.

O elo de ligação entre o universo não realista da personagem D. Maria I e a vida cruel e real da prostituta é costurado pelo personagem Belisário. Entretanto, essa situação não fica apenas na construção da dramaturgia textual, ela se manifesta na atuação dos atores. Sérgio Peres atua dentro de uma perspectiva não realista de construção da personagem. Roberta traz uma personagem realista, na dose certa como o contexto necessita. Já Bernardo, consegue transitar por essas duas opções estéticas, sem prejudicar a encenação. Muito pelo contrário, talvez seja esse um dos predicados que qualificam esse espetáculo, fornecendo uma verossimilhança impressionante a todas as personagens, dentro de cada um dos seus contextos.

Obviamente que tudo isso só foi possível, pois toda a equipe fora conduzida pelas mãos do experiente diretor Valter Sobreiro Jr. que soube potencializar as qualidades de cada um dos seus atores com a maestria que sempre observamos nos seus espetáculos. Além disso, também gostaria de destacar a versatilidade da encenação, uma vez que a sua proposta se adéqua tanto para palcos do tipo italiano, quanto para outros espaços cênicos. Este fato é muito importante nos dias de hoje, quando, antes de pensarmos no mercado para os espetáculos de teatro, também precisamos levar em conta as possíveis adaptações espaciais que venhamos a encontrar pelo caminho.

Portanto, termino esse texto recomendando a todos que ainda não foram assistir à Entremez da Rainha Dona Maria, a Louca, e seu Fiel Criado Belisário, que o façam enquanto estiver em cartaz, pois se trata de mais um competente exemplo dos grandes trabalhos de Valter Sobreiro Jr. e do Teatro Escola de Pelotas. Além disso, a população de Pelotas precisa voltar a valorizar as produções teatrais dos artistas de sua cidade e da qualidade dos seus espetáculos tão reconhecidos no resto do país.

Vagner Vargas
Ator – DRT: 6606
Crítico de teatro



Ói Nóis Aqui Traveiz e o seu Amargo Santo da Purificação


Em um final de tarde escaldante do dia 16 de dezembro de 2012, a Tribo de Atuadores Ói Nóis Aqui Traveiz apresentou o espetáculo O Amargo Santo da Purificação no largo do Mercado Público, ao lado da Prefeitura de Pelotas. Essa não foi a primeira vez que o espetáculo esteve na cidade, nem tão pouco a primeira vez que eu o assisti. No entanto, essa foi a oportunidade em que pude ficar mais próximo dos atores, já que anteriormente havia assistido a peça de longe, no centro da cidade de São Paulo.

O espetáculo é uma criação coletiva do grupo porto alegrense e tem no elenco os atuadores Paulo Flores, Tânia Farias, Pedro Kinast De Camillis, Clélio Cardoso, Marta Haas, Edgar Alves, Roberto Corbo, Sandra Steil, Paula Carvalho, Eugênio Barbosa, Lucio Hallal, Paula Lages, Déia Alencar, Alex Pantera, Karina Sieben, Jorje Gil, Aline Ferraz, Eduardo Cardoso, Raquel Zepka, Caroline Vetori, Anelise Vargas, Letícia Virtuoso, Renan Leandro, Alessandro Müller e Jeferson Cabral. Elogiar o exímio cuidado em todos os detalhes que compreendem as encenações do Ói Nóis Aqui Traveiz é uma redundância. Mas, não devemos deixar de tecer tais comentários, uma vez que este não é apenas um dos melhores grupos de teatro do nosso país. O Ói Nóis é um dos mais importantes grupos de teatro do mundo, reconhecido internacionalmente pela qualidade artística dos seus trabalhos, assim como do seu forte engajamento político.

      O Ói Nóis desenvolve uma série de atividades culturais na cidade de Porto Alegre, levando a sua proposta pedagógica que alia a formação crítica e política dos indivíduos com o que há de melhor na instrumentalização artística no nosso país. Não bastasse isso, como esse grupo é formado, antes de tudo, por artistas, o seu foco está sempre na arte. Nesse caso, no teatro. Não apenas no aprofundamento teórico, mas na sua experimentação e criação prática com montagens teatrais de extrema qualidade.

     Em O Amargo Santo da Purificação, com dramaturgia construída coletivamente pela tribo a partir dos poemas de Carlos Marighella, a tribo conta a história de um herói popular que os setores dominantes do nosso país tentaram banir durante o período de ditadura. A temática pode parecer forte demais para um espetáculo de rua. Mas, é justamente a seriedade e a ética com o que o grupo trata desta temática que faz com que a peça prenda a atenção dos espectadores em plena rua.

    Uma obra de arte no nível dos maiores artistas de todos os tempos, assim podemos definir esse espetáculo. Pode parecer exagero para alguns. Entretanto, creio que aqueles que tiveram o prazer de assisti-los comungam da mesma opinião.

   A identidade visual que o grupo traz aos figurinos, maquiagem, elementos de cena, bonecos, assim como nas enormes estruturas que surgem na nossa frente, são fantásticos. Há uma unidade estética naquilo que é construído, apesar de observarmos uma infinidade de referenciais que levaram o grupo a escolha dos mínimos detalhes. Essa sofisticação criativa eleva o trabalho do grupo a um nível de excelência, mas acima de tudo, reflete o quanto eles respeitam e valorizam os seus espectadores.

O trabalho físico dos atores é evidente e resultante de um árduo empenho e dedicação na pesquisa de uma linguagem teatral pautada nos subsídios que seus corpos podem oferecer. O resultado disso, são corpos vivos, dilatados em cena, sem exageros, sem parecerem um bando de loucos gritando e pulando, como muitos pretendentes a atores incorrem no erro de achar que os gritos, respirações arfantes e excessiva movimentação cênica têm a ver com os princípios do teatro físico e da antropologia teatral. No caso do elenco do Ói Nóis, vemos um grupo coeso, coerente com a proposta, éticos na postura como encaram o fazer teatral e, acima de tudo, atletas afetivos, conforme Antonin Artaud tanto falou em seus textos.

O espetáculo começa com dois grupos de atores, vindos de locais em posições antagônicas, como se fossem um cortejo. O impacto visual de tais cenas é impressionante. A beleza destas cenas chama atenção de longe. Além disso, conseguimos ouvir as músicas que são muito bem cantadas durante todo o trajeto.

Sobre isso, gostaria de fazer um comentário à parte, pois a técnica vocal dos atores é impressionante. Fazer teatro de rua requer uma técnica vocal apuradíssima. Nesse sentido, congratulo o grupo pelo seu trabalho, pois podíamos ouvir perfeitamente todas as falas do espetáculo, cada palavra, o sentido e o sub texto de cada uma delas, independentemente do local onde estivéssemos. Isso tudo com a interferência dos ruídos naturais da rua.

O espetáculo é muito forte e ao mesmo tempo extremamente lírico. O elenco consegue abordar uma temática tão cruel, mostrando toda a sua face terrível, do mesmo modo que consegue aliar essas situações com momentos de tamanha doçura e delicadeza.

Não posso deixar de comentar sobre o trabalho do grande atuador Paulo Flores. Embora o elenco do espetáculo seja muito parelho, Paulo consegue humildemente se destacar. Escrevo “humildemente”, pois quem o conhece sabe que essa é uma das suas maiores qualidades. Paulo Flores tem uma técnica vocal invejável. Eu conseguia ouvir o retorno da sua voz vindo de distâncias muito grandes perto do calçadão de Pelotas. Além disso, a sua entrega ao personagem é algo admirável. Paulo Flores é um daqueles atores que merecem todo o respeito do mundo, não apenas pela sua história no teatro, seus inúmeros prêmios, mas acima de tudo, pela intensidade e beleza com que trata seus personagens. Qualidades estas que apenas os grandes detêm!

A cidade de Pelotas já pode tê-lo aqui, no final da década de 1990, dirigindo o espetáculo de teatro Um Homem é Um Homem, de Bertolt Brecht, que foi um sucesso de público e crítica em todo o estado durante aquele período. Mas, acima de tudo, a grande contribuição que Paulo Flores trouxe à cidade, foram as muitas sementes que ele plantou por aqui e que hoje rendem belos frutos pelo mundo à fora.

Também me sinto na obrigação de destacar o trabalho da grande atuadora Tânia Farias. Uma mulher de teatro que batalha para o fomento da visão crítica e política dos indivíduos na sociedade por meio dos projetos sociais que o Ói Nóis desenvolve. Como se não bastasse isso, Tânia é uma das atrizes mais premiadas do Brasil. O seu trabalho cênico é avassalador. A sua leveza, aliada a uma força impressionante, cativam e conquistam qualquer plateia que fica admirada com o tamanho dessa pequena grande atriz. Assistir Tânia em cena é sempre uma aula para qualquer ator e, por esse motivo, recomendo que assistam muito ao trabalho não só dela, mas de todo o grupo Ói Nóis Aqui Traveiz.

Ao término do espetáculo me dou conta de que estou em plena rua e que as lágrimas rolam pela minha face. Mas, também percebo que não sou o único. Muitas pessoas estavam chorando muito, quando o grupo canta a última canção do espetáculo, enquanto distribuem origamis à plateia e alguns nomes de desaparecidos políticos são lançados ao ar, como uma chuva de papel picado. Enquanto eu assimilava tudo aquilo que havia presenciado, me dava conta da qualidade do trabalho desses artistas ao conseguirem, mesmo na rua, nos fazerem esquecer de tudo e entrarmos totalmente na história que estava sendo contada.

O Ói Nóis Aqui Traveis é um patrimônio nacional e, como tal, devemos sempre voltar, cuidar e apreciá-lo! Tenho certeza que essa não foi a última vez que essa tribo de atuadores visitou a cidade de Pelotas. Por hora, nos resta esperar pelos próximos espetáculos com que eles venham a nos brindar.

Vagner Vargas
Ator – DRT:6606
Crítico de teatro

Berliner Ensemble traz Mãe Coragem, de Betold Brecht, para Ensinar o Verfremdungseffekt ao Público Local


Os sites de compras de ingressos já avisavam com um mês de antecedência que o espetáculo estava com seus bilhetes esgotados. Na bilheteria do teatro e nos postos de vendas do 19° Porto Alegre em Cena, a informação era a mesma. Porém, a procura por desistências e novos ingressos era imensa em todos os locais. Parecia que até mesmo aqueles que desconheciam Bertold Brecht ou o Berliner Ensemble sabiam que se tratava de um espetáculo especial e, por isso, merecia tamanho esforço para assisti-los.

Eu, assim como muitos, não consegui comprar os ingressos pela internet. Cheguei em Porto Alegre três dias antes da apresentação do espetáculo no dia 06 de setembro de 201. Não adiantou muito. Apesar de peregrinar por vários postos de vendas e aguardar horas sentado em frente à da bilheteira do Theatro São Pedro, não consegui comprar o ingresso.

Mesmo assim, não desisti. Cheguei 10 minutos antes do teatro abrir suas portas e fiquei observando a imensa fila de pessoas que dispunham de ingressos, assim como a outra fila dos que, como eu, tinham esperança de conseguir a liberação de cadeiras extras ou o surgimento de ingressos à venda naquele momento. Infelizmente, isso não ocorreu. Porém, enquanto caminhava pela frente do teatro ouvi umas senhoras comentando a felicidade de poderem comprar os ingressos com desconto, devido a sua faixa etária, o que lhes permitia assistir a um número maior de peças de teatro durante o Festival.

Então, quando começo a me afastar, uma delas diz para outra que comprou um ingresso a mais e que tentaria vendê-lo. Na mesma hora, saltei em direção a essa senhora e pedi para comprar o ingresso. Assim que me viu, uma outra moça chegou um pouco atrasada e a idosa me ofereceu o bilhete pelo preço integral. Quando lhe questionei se não o havia comprado pela metade do preço, minha adversária saltou e disse que pagaria o preço integral. Por uma questão de honra e por ter chegado primeiro, paguei o valor integral. A contra gosto, pois poderia ter pago 50% daquele valor. Mas, se não fosse assim, talvez eu não tivesse conseguido adentrar o teatro.

Começo o texto narrando essa minha saga por um ingresso, mas também gostaria de divulgar a minha indignação pelos altos valores dos ingressos para algumas apresentações durante esse evento. Esse festival de teatro que acontece na capital gaúcha recebe incentivos públicos, assim como verbas da iniciativa privada. Compreendo perfeitamente que o espectador deva aprender que tem que pagar para assistir ao trabalho dos artistas, do mesmo modo que paga para assistir a jogos de futebol, entradas e bebidas alcoólicas em casas noturnas.

Não me aterei muito a essas questões, pois já as abordei no texto publicado aqui: http://criticasparateatro.blogspot.com.br/2013/05/porto-alegre-em-cena-e-um-publico-avido.html  . O público deve aprender a valorizar e a pagar pelo trabalho dos inúmeros profissionais que trabalham no mercado artístico, assim como toda a economia indireta que se forma durante tais eventos. No entanto, isso não é desculpa para que os valores dos ingressos sejam tão altos.

Bom, após toda essa explanação, comentarei sobre o quanto a apresentação da peça Mãe Coragem e Seus Filhos, de Bertolt Brecht, me tocou durante os seus 180 minutos. A peça escrita em 1939, estreou em 1941, em Zurique. Mãe Coragem é uma mulher que tenta salvar os seus filhos dos horrores da guerra, conduzindo uma carraça com objetos que são vendidos tanto aos militares, quanto à população em geral. A personagem perde seus dois filhos para as propostas ilusórias do exército. Lá, esses dois garotos perdem suas vidas. Durante esse período, Mãe coragem continua sua peregrinação entre os destroços da guerra, tendo ao seu lado a sua filha muda.

Durante a peça, apesar do horror da guerra, vemos a descoberta de romances e momentos de lirismo, quando cada uma das personagens revela um pouco do que há de mais íntimo. Infelizmente, a menina muda perde a sua vida, tentando avisar aos moradores de uma pequena localidade sobre um ataque militar que se aproxima. Ante toda essa barbárie, Mãe Coragem decide continuar, pois não lhe resta outro destino, senão sobreviver.

O texto de Bertolt Brecht – grafia diferente do seu nome de nascimento, pois o escritor alemão gostava que seu nome fosse escrito dessa forma – traz à tona todo o contexto político vivido na Alemanha durante aquele período. Além disso, essa peça é um ótimo exemplo de como podemos analisar as características defendidas por Brecht sobre como deveria ser o seu teatro. Por todos esses motivos e muitos outros que eu poderia citar aqui, recomendo a leitura das muitas peças de teatro escritas por esse gênio da dramaturgia teatral.

O Berliner Ensemble é uma companhia de teatro alemã fundada em 1949, por Bertolt Brecht e sua esposa, a atriz Helene Weigel. Atualmente, o Berliner Ensemble está situado no Theater am Schiffbauerdamm, em Berlim. A companhia trabalha em consonância com os preceitos defendidos e propostos por Brecht e que revolucionaram a perspectiva do fazer teatral a partir de então.

A montagem que chegou ao palco do Theatro São Pedro era linda. Aliás, perfeita! Não há outra palavra para definir o espetáculo que pude ter o prazer de assistir e do quanto aquele trabalho mexeu comigo.

Inicialmente, ao entrarmos na plateia do teatro, víamos que o palco estava adaptado, diferente das suas proporções tradicionais, do tipo italiano, já que o palco do Berliner Ensemble, em sua sede, tem outras proporções espaciais. Toda a estrutura técnica da caixa cênica estava à mostra, assim como Bercht sempre defendeu, para que perdêssemos o costume de encararmos o palco como um espaço onírico. Não haviam coxias, as varas de iluminação estavam à mostra, o urdimento aparente e as cortinas abertas.

A música de Paul Dessau, com direção musical de Rainer Böhm, era executada pelos músicos Katja Kulesza (violino), Volker Schindel (acordeon), Silke Eberhardt (saxofone, clarinete e baixo) e Clemens Rynkowski (teclado e voz) em um espaço entre a plateia e o palco, conforme idealizado por Brecht, rompendo com ilusão de uma trilha que vinha dos bastidores ou do fosso da orquestra. Os músicos estão ali, o tempo inteiro, figurinados, maquiados, inteiros dentro do espetáculo. Mas, sempre mostrando que são músicos e que aquilo ali é teatro.

O Cenário de Frank Hänig conseguia transpor todos os ambientes e momentos pelos quais as personagens passavam durante aquele período. Pequenos elementos de cena eram trazidos à tona pela contra regragem de maneira quase que invisível e funcionavam perfeitamente, mostrando que não precisamos de um palco excessivamente poluído de elementos cênicos para que o público consiga perceber o ambiente em questão. Obviamente que tudo isso se tornava possível, pois cada item estava totalmente dentro da proposta e sendo funcional para cada momento da história.

O vagão da personagem protagonista, com todos os seus elementos e engrenagens, por horas parecia ser muito difícil de ser conduzido por uma atriz com idade avançada. Mas, ao mesmo tempo, justamente essa dificuldade, nos aumentava a sensação das agruras pelas quais aquelas pessoas estavam passando durante a guerra.

Os figurinos de Maria-Elena Amos ao mesmo tempo em que imprimiam uma identidade visual a cada um dos personagens, construíam uma coerência temporal para aquele momento de guerras. As texturas e a paleta de cores utilizadas passavam a sensação de frieza, dor e sofrimento presentes na vida daquelas pessoas. Apesar disso, alguns personagens apareciam em cena com maquiagens extravagantes, gerando um conflito visual com o contexto do visagismo. Esse, com certeza, deve ter sido mais um artifício do grupo para explicitar aos espectadores de que aquilo tudo se tratava de ficção, teatro e como tal, deveria ser visto com distanciamento e reflexão.

O espetáculo, dirigido por Claus Paymann, ainda conta com a dramaturgia de Jutta Ferbers responsável pela adequação da proposta de encenação, com o texto original de Brecht. Também não posso deixar de referir à beleza da iluminação cênica e dos efeitos especiais. Tanto a sua concepção, como a maneira com que eram operados e inseridos no momento exato de cada cena traziam uma beleza impressionante ao espetáculo, além de atuarem como elemento colaborador da história.

Apesar de alguns espectadores desavisados terem chegado ao teatro sem saberem de que se tratava de uma peça com 180 minutos de duração e toda em alemão, os Black outs para as trocas de cenas foram os aspectos que mais geravam comentários na plateia. Talvez essa demora tenha ocorrido, devido ao fato da adaptação espacial que o grupo teve que fazer no palco do Theatro São Pedro, o que lhes dificultava as trocas de cenário. Porém, se Brecht gosta de desassossegar seus espectadores, quem sabe esses momentos em que ficávamos imersos na escuridão da plateia não tenham sido colocados para que pudéssemos refletir sobre o horror que as pessoas inseridas em uma guerra não sejam obrigadas a passar?

O elenco formado por Carmen-Maja Antoni, Winfried Goos, Traute Hoess, Andy Kinger, Anna Graenzer, Martin Seifert, Veit Schubert, Martin Schneider, Michael Rothmann, Axel Werner, Detlef Lutz, Michael Kinkel, Manfred Karge, Roman Kaminski e Ursula Höpfner-Tabori é perfeito. Não há o que se possa apontar em suas atuações que não sejam elogios à tamanha verossimilhança cênica de suas personagens. O trabalho desses atores, sem exceção, era de tamanha entrega e verdade que não havia como não compreendermos tanto o que eles diziam, quando o que se passava nos sub textos de suas personagens.

Mesmo não falando alemão, a verdade desses atores era tão grande, que em vários momentos, eu deixei de ler as legendas e conseguia compreender o que eles estavam dizendo. Apesar de conhecer a história e já ter lido esse texto algumas vezes, a entrega dos atores nos fazia compreender o que estava sendo dito e não dito apenas pela intensidade dos seus olhares.

Brecht sempre disse, dentre outras coisas, que o teatro além de fazer pensar, também deveria entreter os espectadores. Uma das alternativas empregadas por ele, são os momentos que as personagens cantam. No caso desse espetáculo, as músicas não são alegres e seus textos contém um pouco das aflições que as personagens estão vivenciando. Esse também é um dos efeitos do distanciamento brachtiano ou o Verfremdungseffekt, assim como os interlúdios que também permitem o estranhamento do espectador ante aquela situação, quebrando a ilusão de espetacularidade teatral e fomenta a reflexão sobre aquelas situações que lhes estão sendo apresentadas.

Eu sempre costumo chamar a atenção para o fato de que, se os atores vão cantar no teatro, em primeiro lugar, eles têm que saber cantar. Isso não significa que eles devam cantar de maneira como os atores de ópera fazem, muito embora a técnica vocal destes cantores seja extremamente útil aos atores do teatro convencional. No caso desse espetáculo da companhia alemã, os atores desafinavam, não cantavam como cantores e nem suas vozes são do tipo que tocaria em alguma rádio ou faria sucesso entre os amigos em uma roda de violão.

Porém, a intensidade, subtexto e a carga de verdade com que o elenco imprimia às músicas nos fazia tanto nos distanciarmos da questão musical, quanto perceber o real sentido daquelas palavras inseridas em uma melodia que refletia o seu estado emocional interior. Além disso, a dissonância de suas vozes exemplificava o universo daqueles seres degradados pela guerra, de vidas que já não conseguiam mais se afinar nos acordes de uma normalidade comum nos tempos de paz.

Os momentos em que as personagens cantavam tanto no meio da plateia, quanto no palco, parecia que nos davam uma chacoalhada para que enxergássemos aquelas pessoas para além de quaisquer preconceitos que pudessem estar sendo construídos ao longo da peça, nos trouxesse para dentro da verdade de seus sentimentos e do quanto algumas palavras devem ser caladas em tempos onde a paz não existe. Muito apropriada e inteligente também foi a maneira como o grupo utilizou todo o espaço do teatro, seja no palco ou na plateia, seus personagens transitavam pelos espaços lembrando que os espectadores estavam ali, que existiam e que deveriam estar sempre atentos a se distanciarem da história que lhes estava sendo contada.

Apesar do nível do elenco ser extremamente uniforme, não posso deixar de ressaltar o trabalho impressionante de três atrizes. Iniciarei pela atriz Ursula Höpfner-Tabori, no papel da prostituta. A humanidade que essa atriz entrega a sua personagem fez com que o público a aplaudisse muito no final do espetáculo. Além disso, de maneira muito delicada e, ao mesmo tempo, dura e extravagante, a atriz consegue desmontar todos os pré conceitos sociais que a maioria das pessoas têm em relação a uma prostituta. Nesse caso, Ursula faz a plateia ir além e compreender o papel de sua personagem naquele contexto e das artimanhas que ela tem que fazer para sobreviver em um ambiente tão hostil.

Já a jovem atriz Anna Graenzer, interpreta Katarina, a menina muda com uma profundidade impressionante para a sua pouca idade e já atuando em uma companhia com a importância do Berliner Ensemble. As cenas em que a personagem tenta gritar, caindo em um pranto mudo e o momento em que ela tenta avisar a vila que será atacada pelos militares foram de uma intensidade imensa. Não tinha como não se emocionar e se envolver com o que estava se passando com aquela menina. Essa não foi uma opinião só minha. Posso dizer isso, tamanhas foram as ovações a essa jovem atriz após o término do espetáculo.

A plateia aplaudiu em pé, sem parar, por mais de 15 minutos após o espetáculo, o que emocionou e tocou ao elenco que voltava para agradecer com muita surpresa. Toda a equipe técnica, contra regragem, atores e músicos se mostravam encantados com a ovação que os espectadores estavam lhes ofertando em retribuição pela obra de arte que haviam apreciado naquela noite.

Agora, um capítulo à parte se deve à pequena grande atriz Carmen-Maja Antoni que deu vida à protagonista desta história, Mãe Coragem. A atriz de pequena estatura, aparentando ser uma senhora idosa, com possíveis limitações decorrentes da idade avançada, lhe conferia uma aparência de fragilidade. Entretanto, a sua força cênica era tão grande que a tornava uma gigante no palco, capaz de guardar todos os espectadores no seu bolso e conduzir, por meio do seu enorme carisma, a história para além dos sofrimentos e batalhas que aquela mulher tinha que enfrentar para se manter viva como mulher em um período de guerra.

Os olhos dessa atriz gritavam os sub textos de sua personagem, assim como lhe conferiam uma humanidade impressionante. O tom de voz que lembrava Edith Piaf ressaltava a verdade com que cada uma das palavras que saiam da sua boca eram ditas e do quanto nenhuma delas era externalizada em vão. A fragilidade resiliente de Carmen-Maja nos fazia ao mesmo tempo compadecer com a sua história e a aprender a não julgar a personagem pela situação, quando desconhecemos o seu interior. Somente uma grande atriz e com tanta competência conseguiria dar tamanha vida a sua personagem.

Não há como sair do teatro sem ter sido tocado pela história de Mãe Coragem e seus filhos e, nesse caso, da alegria de ter visto uma montagem com tamanha excelência e tão de acordo com os preceitos do seu criador. Saliento isso tendo em vista a audácia de alguns comentários que ouvi de “teóricos” e acadêmicos da arte teatral local ao término do espetáculo referindo terem visto tudo menos o efeito de distanciamento brechtiano em cena.

Em um primeiro momento, eu ri de tais comentários, devido a sua arrogância para chegarem ao ponto de dizer que a companhia de teatro criada pelo próprio autor da peça e das teorias criadas por ele não estava atuando de acordo com a proposta do próprio Bertolt Brecht. Talvez essas pessoas creiam que o fato de ocuparem certos cargos e ensinarem as suas interpretações sobre as propostas de Brecht sejam superiores ao trabalho da companhia de artistas que se dedica a manter a tradição e propostas de seu criador, ainda vivas nos dias de hoje, conforme ele fazia em seu teatro.

Achei tais comentários hilariantes, pois apenas transparecem o fato da arrogância ser irmã gêmea da ignorância e filha da incompetência. Possivelmente, essas pessoas, ao terem estudado as propostas de Brecht e suas peças, tenham tido uma compreensão aquém do que ele realmente propôs. Ninguém está livre para que pessoas limitadas leiam seus textos e saiam passando à diante uma visão simplista dos seus conteúdos. Nesse caso, foi o que me pareceu. Infelizmente, eles tiveram uma leitura muito rasa sobre o que é o Verfremdungseffekt e de que maneira ele estava magistralmente posto em cena na montagem que havíamos acabado de assistir.

A atuação dos atores era realista, não precisava ser estilizada, pois a proposta não era essa. O trabalho físico dos atores não precisava ser explicitado em performances exuberantes apenas possíveis aos mais jovens. O corpo dos atores estava ali, vivo, presente e falando muito, sem precisar ficar correndo ou se movendo pelo palco de maneira aleatória. Além disso, os atores não precisavam reduzir o seu trabalho à ilustração de que estavam dialogando com a plateia. Não há a necessidade de ser tão simplista para que a plateia compreenda essa relação.

Tudo estava ali, discretamente bem colocado. Perceptível aos olhos daqueles que realmente conhecem a proposta do teatro brechtiano. Mas, esses são por menores técnicos que cabem apenas aos profissionais das artes cênicas e àqueles que teorizam sobre os seus trabalhos. Quanto ao público, conforme Brecht propunha, ele tem que estar ali, atento, reflexivo, crítico e, acima de tudo, se entretendo.

Se a arrogância dos pseudo teóricos locais lhes permitisse ler esse texto, eu recomendaria que descessem um pouco mais dos seus saltos intelectualoides, para realmente refletirem sobre o fato do teatro que eles pensam ser o ideal não seja justamente o que está afastando os espectadores das plateias no país inteiro. O trabalho do Berliner Ensemble foi um excelente exemplo de como artistas de verdade fazem com que a sua arte cative à plateia.

Aqui no Rio Grande do Sul, a Tribo de Atuadores Ói Nóis Aqui Traveiz foi responsável por montagens competentes e de extrema qualidade de várias peças de Bertolt Brecht. O que também foi visto nos palcos pelotenses, no final dos anos 90, com a montagem de Um Homem é Um Homem, sob a direção de Paulo Flores. Tanto o espetáculo pelotense, quanto os montados pelo Ói Nóis Aqui Traveiz foram sucesso em todo o estado e representam típicos exemplos de como podemos realizar montagens artisticamente competentes desse autor aqui no nosso estado.

Para quem ficou interessado em ter uma pitada do espetáculo que gerou toda essa crítica, deixo aqui um link contendo uma cena dessa peça: http://youtu.be/FaZHB5QJCUM

Finalizo aqui desejando que o Berliner Ensemble possa voltar outras vezes ao Brasil, trazendo a beleza dos seus trabalhos. Além disso, também espero que a obra de Bertolt Brecht receba outras montagens nos palcos gaúchos à altura do seu criador.

Vagner Vargas
Ator – DRT: 6606
Crítico de teatro




Maturidade, Talento e Ética no Teatro: A Cia Pelotense de Repertório


Era um domingo, 16 de setembro de 2012, chuvoso e frio, típico do final de inverno em Pelotas. Porém, essa não foi a desculpa para manter um expressivo número de pessoas em suas casas assistindo aos enfadonhos programas de televisão exibidos nos canais abertos. Motivados pelo anúncio do novo espetáculo de teatro da Companhia Pelotense de Repertório, muitos espectadores resolveram aproveitar o dia para apreciar essa estreia.

Uma das novidades, se referia ao fato do local da apresentação se dar no João Gilberto Bar, um espaço até então não explorado pelas artes cênicas pelotenses. Este espaço já tradicional e conhecido na região por suas festas e shows musicais, abriu suas portas para um novo filão de mercado: o teatro.  A este fato, devemos saudar o pioneirismo da Cia Pelotense de Repertório por estar abrindo caminho para quiçá um novo espaço fixo para apresentações teatrais em Pelotas. Obviamente que, dada a estrutura do local, os espetáculos teatrais que ali possam vir a ser encenados precisarão ser específicos a esse contexto.

O primeiro fato que chamou a atenção, foi o número de espectadores, pois eles, apesar de em grande número, representam ainda uma pequena parcela de pessoas que possam vir a buscar esse tipo de entretenimento em dias e locais fora dos usuais. O fato da proposta da Companhia ser para apresentar seu espetáculo em bares, já agrega um potencial interessante e atraente ao público, pois, além de irem apreciar uma obra teatral, também podem dispor do conforto e dos serviços que um bar e restaurante possa lhes oferecer e, após a apresentação, confraternizar com o elenco e frequentadores do local.

Esse fato permite que os espectadores se sintam motivados a saírem de suas casas para assistirem a uma peça de teatro, já que sabem que não irão se deslocar a um local geralmente insalubre, onde deverão permanecer horas em pé, no frio e com pouca ventilação, como alguns grupos de teatro crêem como única alternativa para apresentações em espaços “alternativos”. A necessidade de buscar novos locais para manter a arte teatral viva na cidade de Pelotas se faz necessário, uma vez que o único teatro público da cidade permanece fechado há mais de 2 anos pela atual gestão municipal.

O segundo aspecto que me despertou o interesse na plateia, foi a faixa etária dos espectadores. Comumente, costumamos ver adolescentes e adultos jovens nas plateias dos teatros. No entanto, para esse trabalho da Cia Pelotense de Repertório, observei que a maior parte do público era composta por pessoas de meia idade e idosos. Também devemos prestar atenção a essa situação, pois isso mostra além de uma empatia dessas pessoas ao excelente trabalho do grupo de atrizes que estava se apresentando, demonstra ser uma fatia de público pouco explorada pelos artistas de teatro nos dias de hoje.

Nesse dia, a Cia apresentou o Stand up Comedy 4.5 A Toda Potência. O espetáculo, apesar de dialogar com o estilo tradicional das comédias em pé norte americanas, possui um enredo, com momentos em que cada uma das personagens vai contando a sua história, outros onde dialogam entre si e com a plateia. O texto criado por Joice Lima, que também assina a direção, foi criado a partir de situações e histórias pessoais das atrizes e de pessoas que colaboraram para a criação da peça de teatro. Com ótimas sacadas em tom de humor, as atrizes Joice Lima, Ana Alice Muller, Neusa Maria Khun, Márcia Monks e Val Fabres vão revelando as problemáticas e vivências de mulheres que já passaram dos 40 anos.

Talvez, esse seja um dos aspectos que tanto gerou empatia e identificação da plateia que se fez presente. Foi muito prazeroso observar os espectadores se divertindo, gargalhando e comentando com seus amigos sobre as situações que as personagens iam revelando. Temáticas como amor, adultério, solidão, fantasias sexuais e o amadurecimento foram abordadas no tom certo durante a construção dramatúrgica do espetáculo. Gostaria de salientar a ótima sacada do elenco ao aproveitar o espaço onde estavam se apresentando para dialogarem com os espectadores de maneira mais próxima, quebrando as barreiras entre o “espaço do artista” e o “espaço da plateia”.

Além disso, a intimidade, talento, carisma e  entrosamento das atrizes permitia que o enredo fosse se desenvolvendo de uma maneira muito leve. O tempo de comédia estava na medida certa para as situações que as personagens viviam, o que estimulava ótimas gargalhadas ao público presente.

Com certeza, foi um final de domingo muito agradável a todos que foram assistir ao espetáculo 4.5 a Toda Potência. Essa é apenas uma das diversas peças de teatro que a Cia Pelotense de Repertório possui e que costumam ser frequentemente levadas aos palcos.

A maturidade cênica do elenco representa um dos fatores de destaque dessas artistas, não somente pelo respeito que demonstram com os seus espectadores ao oferecerem espetáculos que sejam agradáveis, mas também, por considerarem o conforto e bem estar de quem lhes assiste. Isso, faz com que o público se sinta respeitado e valorizado pelos artistas e não pareça que o artista está fazendo um favor aos espectadores e por isso devam ir a qualquer lugar, com qualquer estrutura para assisti-los.

O público carece de entretenimento e espetáculos de boa qualidade. O número expressivo de pessoas na plateia desse dia ressalta a necessidade da oferta artística que contemple não apenas essa faixa etária, mas também às pessoas que desejam sair de suas casas e viverem momentos agradáveis em contato com a arte.

Portanto, recomendo para quem ainda desconhece os trabalhos da Companhia Pelotense de Repertório, que guarde bem esse nome e procure assistir aos seus espetáculos que constantemente circulam pela região. Além disso, reforço o valor do empenho, ética e respeito que esses artistas matem na criação de suas peças de teatro.

Vagner Vargas
Ator DRT: 6606
Crítico de Teatro

sexta-feira, 17 de maio de 2013

Desabafo de um Ator!




Quanta bobagem!
Quanta besteira!
Quanto despreparo para falar de cultura!

 Estou cansado de tanta gente que se utiliza de um discurso desconexo, desprovido de embasamento para se outorgar o direito de falar em prol de uma categoria. Fazer tipo, ter estilo, misturar palavras, fugindo das normas do idioma, mesmo que seja da maneira comum de organizar sua fala em um contexto coloquial, apenas indica a fragilidade de não se ter conteúdo suficiente para sustentar um discurso. Assim, se permanece no limiar da aparência, no discurso raso e inconsistente.

Negar a história e tradição de um lugar não é apenas um equívoco. Mas, uma burrice!

Negar o valor do patrimônio histórico, seja ele material ou imaterial demonstra que pouco se sabe sobre o conceito mais amplo de cultura. Chegar com olhar arrogante por sobre o que constitui a cultura de um determinado local, menosprezando-a ao ponto de desprezá-la e achar que devemos esquecer todo o contexto que envolve o patrimônio histórico material e imaterial, ressalta a profunda ignorância de quem desconhece a realidade da profissão artística e da importância que determinados aspectos representam para a construção da identidade cultural de um povo.


Negar a importância que o restauro do Theatro Sete de Abril tem para Pelotas é um absurdo!

Menosprezar a importância que não apenas a classe artística dá a esse teatro é um desrespeito com o patrimônio cultural nacional!

Sim, digo isso, pois o Theatro Sete de Abril não é importante apenas para Pelotas, mas para o Brasil com um todo. Não entrarei nem na questão do fato dele representar e exemplificar toda a constituição histórico cultural de um determinado período do nosso país. Mas, ouvir palavras dizendo que temos que esquecer esse teatro - e não é apenas uma pessoa equivocada que vem proferir esses pseudo discursos por aqui – me indigna muito!

Fico indignado, pois esse tipo de discurso pseudo intelectualóide de base rasa, parca e inconsistente reflete o grande despreparo e desconhecimento de algumas pessoas que resolvem se intitular para falar em nome de uma determinada categoria profissional. Para aqueles que desconhecem a realidade do mercado cultural das artes cênicas como um todo, eu vou descrever agora, apenas alguns dos motivos para os quais o Theatro Sete de Abril se faz importante em nossa cidade. De início, pegarei apenas os aspectos mercadológicos. 

Para quem não é profissional das artes cênicas, talvez não saiba, mas a existência de um teatro público em uma cidade, facilita não apenas o fluxo de apresentações de música, teatro, dança, performance e etc... oriundas de fora do município, incluindo-o no circuito de circulação nacional e internacional de espetáculos, pois os preços de aluguel do estabelecimento se tornam atrativos e facilitam a vinda de artistas de fora à cidade.

Com isso, ganham os artistas, por terem mercado de trabalho e a população pela possibilidade de ampliação do seu repertório estético artístico. No entanto, esses benefícios não se direcionam apenas para os artistas de fora da cidade. Aqueles que aqui estão trabalhando, podem dispor de um teatro público, com toda estrutura técnica que lhe propicie boas condições de trabalho, além de fomentar a formação de público local e valorizar a produção artística da cidade.


A localização central do Theatro Sete de Abril facilita o acesso do público que circula, trabalha ou estuda pelo centro da cidade. Ele dispõe de vários locais para o estacionamento de automóveis pelas suas redondezas. Existem vários estabelecimentos alimentícios e demais comércios pelas redondezas, propiciando que os espectadores disponham de uma ampla gama de facilitadores para o acesso às atividades artísticas nesse local. Assim como o fato de, em caso de necessidade, qualquer pessoa rapidamente consegue ter acesso a muitos serviços.

Quem trabalha no mercado artístico, compreende que a localização das casas de espetáculos é muito importante no fomento, estímulo e formação de plateias.

Nesse sentido, não posso deixar de considerar que seja muito ingênuo o pensamento de que todo espectador tenha que ser obrigado a querer assistir experimentalismos artísticos, em espaços inadequados para as características e necessidades de algumas pessoas. Entretanto, também não quero dizer aqui que os artistas ainda inexperientes e jovens não tenham que se entregar às experimentações artísticas e que elas também não devam existir. Refiro isso, pois considero que propostas artísticas em locais não usais oferecem oportunidades estéticas diferenciadas àqueles que desejam ir lá apreciá-las.

Porém, me nego a deixar que discursos ingênuos e fora do contexto profissional da vida artística fiquem indo até à mídia para levantarem bandeiras de suas crenças estéticas peculiares. As pessoas que pretendem trabalhar com arte não podem impor ao público as manifestações estéticas que lhes agradam.

Por outro lado, também acredito que os artistas não devam se curvar às pressões da mídia para que exista um tipo de ditadura das estéticas teatrais, impondo que apenas um tipo de espetáculo seja divulgado e estimulado de ser levado ao público em geral. No entanto, comumente, pessoas que não são artistas, mas tentam trabalhar com arte, costumam impor alternativas ditas experimentais como as únicas válidas de serem levadas aos espectadores. Além disso, a arrogância dessas pessoas não é nada mais, nada menos do que uma auto defesa para tentar ludibriar as fragilidades da sua “não-arte”. Para tanto, costumam vir com discursos prontos, misturando uma infinidade de referenciais teóricos e acadêmicos – na maioria das vezes de maneira equivocada – para dizerem que o que produzem é arte. Sendo essa a única  válida, importante e merecedora de destaque.

Os espectadores não têm que ficar escravos desse tipo de manifestação. Quem diz que os espectadores devem ter a sua disposição apenas espetáculos experimentalistas, desconhece totalmente a realidade da profissão artística. O público tem que ter todas as opções para decidir em quais deseja ir. Mas, negar a importância de teatros no estilo do tipo italiano é uma burrice!


Escrevi aqui esse texto imenso, pois, eu como artista e profissional da arte me nego a deixar que pessoas despreparadas e desconhecedoras da vida artística fiquem indo aos meios de comunicação menosprezar e desconsiderar a relevância que o patrimônio histórico tem para a nossa cidade. Além disso, saliento aqui o meu apoio aos esforços que eu sei que a atual administração está fazendo para que um dos teatros mais bonitos desse país – digo isso, pois já pisei o palco de muitos teatros em diversas cidades – não venha a desabar. Tenho certeza de que o atual governo compreende profundamente o valor que o patrimônio histórico material e imaterial têm para a cultura de um povo.


Agora, para quem trabalha nos meios de comunicação, pesquise mais a quem você está dando a palavra, para ver se essa pessoa realmente compreende e tem vivência na área para saber do que está pretendendo falar. Para quem, na sua ingenuidade e ignorância desconsidera o valor do Theatro Sete de Abril para a cidade de Pelotas, eu apenas lhe digo uma coisa: Vá estudar!
Ator – DRT:6606
Crítico de Teatro

Texto publicado em 17/01/2013



Posfácio de um Desabafo

O texto acima foi escrito em tom de desabafo e indignação após uma entrevista que eu assisti em um programa de TV local, onde uma pessoa totalmente despreparada vinha trazer ao público as suas crenças sobre o teatro na cidade de Pelotas. Já deixei anteriormente escrito o que penso sobre as declarações dessa pessoa, assim como ao despreparo de pessoas que lidam com certas mídias.

Mas, após re ler esse texto, senti a necessidade de comentar outras coisas, pois venho observando nos últimos anos um movimento crescente de desdém à cultura local. Coincidentemente, esse tipo de postura tem vindo de pessoas sem vivência e experiência artística. No entanto, são dotadas de uma soberba extrema que lhes auto confere um pseudo direito de virem menosprezar os valores do patrimônio histórico material e imaterial da cidade de Pelotas.

Obviamente que as pessoas com esse tipo de comportamento estão equivocadas. Entretanto, para os olhos mais atentos, isso apenas reflete o olhar viciado e despreparado de pessoas que desejam ser artistas, desejam ser profissionais das artes cênicas. Porém, o lugar onde sempre habitaram foi a margem dos artistas do palco, os assentos das plateias ou as suas salas de aula.

Diploma não torna ninguém artista. Toda e qualquer tipo de formação, seja ela em espaços formais ou não formais, tem o seu valor por agregar algum tipo de experiência aos indivíduos. No entanto, não é o fato da pessoa ter esse ou aquele título, ter estudado aqui ou ali que a tornará artista.

A prática diária da sua arte, comungando com o seu público é que, ao longo do tempo, lhe constituirá como artista. O artista trabalha para a sua arte. O conforto e segurança de uma sala onde se pode criar “verdades absolutas” – com muitas aspas, pois eles realmente crêem que as possuem – não lhes torna artista. Precisamos diferenciar, antes de mais nada, o artista, daqueles que falam, teorizam, divagam e especulam sobre a carreira artística.

Estar protegido dentro de um templo de teorias e divagações para vez por outra realizar algum tipo de apresentação a um público seleto, justificando todas as suas falhas artísticas por meio de referências bibliográficas está muito distante do que realmente é o trabalho dos atores de verdade. Os verdadeiros atores estão lá, em suas salas de ensaio, teatros, ruas, em busca do seu público e de suas personagens.

Sobre os por menores dessa questão, prefiro deixar as palavras ditas pela grande atriz Fernanda Montenegro nesse vídeo: http://youtu.be/KMQzG1jpavU

Apesar de muitas pessoas perceberem a diferença entre os atores de verdade e aqueles que criam verdades e conceitos sobre o trabalho dos atores, a mídia costuma dar muito espaço a estes últimos, limitando a palavra a quem realmente é trabalhador das artes cênicas. Essa pode estar sendo uma postura inicial dos meios de comunicação aqui na cidade, pois, muitas das pessoas que trabalham neles possuem laços de amizade e/ou parentesco com aqueles que falam sobre as artes cênicas, mas não são realmente artistas da cena.

Estaria essa falácia ocorrendo em outras cidades?
Será que os meios de comunicação também optam por dar a palavra àqueles que não são atores para falarem sobre o ofício de ator, como se assim o fossem?

Não sei se isso acontece em outras cidades. Realmente não sei. Todavia, identifico aqui um grave problema. Ao fornecer a palavra a pessoas que não vivenciam e não têm competência para um certo ofício, os meios de comunicação acabam deixando que pessoas despreparadas levem suas crenças, conceitos e percepções sobre algo que elas não têm competência para fazer, mas criam “verdades” que são levadas ao público como sendo “realidade”.

Essa é uma ótima alternativa para aqueles que não são atores se outorgarem conceitos e definições sobre o trabalho dos profissionais de teatro, pois o que dizem está nos meios de comunicação, lhes conferindo certa credibilidade junto a uma grande parcela de público que não dispõe de repertório estético suficiente para olhar essas informações por meio de uma perspectiva crítica. Por outro lado, os atores de verdade, profissionais das artes cênicas muitas vezes se vêem em apuros tendo que convencer o público de que eles não precisam ser detentores de todos os embasamentos teóricos e acadêmicos para poderem prestigiar os seus trabalhos artísticos.

A cidade de Pelotas tem uma tradição teatral que perdura desde o século XIX. Se hoje existem cursos superiores nas artes cênicas nessa cidade, eles se devem ao fato de que os artistas nunca deixaram de produzir teatro e dança em Pelotas. Os recém chegados à Princesa do Sul sejam eles para trabalharem em algum setor relacionado às artes cênicas ou para buscarem cursos na área, não desembarcam em um município desprovido de referenciais estéticos na área.

Talvez, esse seja o grande erro e problema de algumas pessoas que, equivocadamente, fazem de sua arrogância o conceito de uma “Síndrome de Padre Anchietismo”, pensando que estão vindo catequizar alguns índios. Essas pessoas se utilizam dos seus locais de poder, das suas relações de poder e, acima de tudo, da segurança confortável dos seus locais de trabalho para espraiarem os seus idealismos, preconceitos culturais e equívocos artísticos.

Pelotas não é e nunca foi uma cidade à margem do universo cultural. Se os estrangeiros que aqui chegam para matar a sua fome, por meio do seu trabalho, ou para sanar a sua sede de aprendizado, mantêm um olhar preconceituoso sobre a nossa história, isso reflete o quanto lhes falta aprofundar os estudos sobre a cultura local.

Já cheguei a ouvir declarações de pessoas dizendo que nunca houve teatro fora de Porto Alegre durante o século XIX, que desconheciam nomes como Lobo da Costa ou até mesmo, professor indo à público dizer que João Simões Lopes Neto nunca havia escrito uma peça de teatro. Esses são apenas alguns pequenos episódios. Infelizmente, são pequenos, pois existem “conceitos” piores.

O que isso significa?

Significa a frágil formação de algumas pessoas que vêem à cidade ensinar outras. Significa o total despreparo e falta de vivência como profissionais das artes cênicas para virem ditar suas “verdades”.

As minhas palavras podem transparecer algum tipo de generalização ou banalização da importância de muitas pessoas que aqui chegam. Mas, não é nada disso, um bom leitor saberá discernir e refletir bem sobre o que estou escrevendo.

Agora, traçando uma relação com o texto anterior, o que me assusta é que pessoas como essa que deu a tal entrevista, adquire esse olhar equivocado sobre o patrimônio cultural material e imaterial da cidade de Pelotas, por meio de pessoas que aqui chegam trazendo consigo uma grande carga de arrogância, respaldada em uma base referencial muito frágil. Toda essa percepção equivocada sobre a cultura da cidade, sobre a história do teatro local, de seus atores, dramaturgos, figurinistas, cenógrafos, iluminadores, maquiadores, diretores e demais profissionais das artes cênicas, se deve ao fato de que muitas dessas pessoas ou realmente não estudam e pesquisam sobre o local onde vem trabalhar ou têm medo de que os demais descubram a sua insignificância ante à história daqueles que aqui construíram uma história do teatro pelotense.

Para tanto, a humildade e o respeito se fazem necessários. Mas, essas não são qualidades que os fracos, incompetentes e despreparados possuem. Assumir suas fragilidades pode lhes soar como perda do seu lugar de conforto e poder, já que os demais o perceberão em sua real condição. Porém, na verdade, respeitar a história de um local, a sua cultura e as pessoas que constituíram e constituem ao longo dos tempos, lhe trará um respeito maior perante à sociedade, já que essa pessoa demonstrará que está disposta a se informar, para que, no futuro, possa vir a colaborar efetivamente para a cultura do município.

Mas, será que existe essa disposição?

Aos que recém começam a dar os primeiros passos nas artes cênicas, recomendo que duvidem de tudo o que lhes dizem, saibam perceber quem são os que realmente têm propriedade para falar sobre o labor nas artes cênicas e quem são os seus falsos mestres.

A ingenuidade é irmã da inexperiência.

Somente o tempo lhes trará esse discernimento. Mas, não custa nada lhes chamar atenção para que não comecem a sua caminhada dando passos infalsos ou utilizando sapatos com saltos frágeis que rapidamente se rompem e a queda pode ser definitiva para alguns.

A cada dia mais sinto a necessidade de que os artistas do palco reflitam sobre os motivos que têm afastado os espectadores de suas plateias. A modernização, as inúmeras tecnologias, a violência urbana, o acesso e uma série de questões representam apenas alguns desses motivos. Entretanto, acredito que tanto os artistas, quanto os aspirantes a profissionais das artes cênicas devam estar bem atentos para o que está afugentando o público dos teatros.

Não seria o fato da divulgação de que o espectador para assistir a um determinado espetáculo deva trazer consigo uma bagagem literária imensa para que ele não se sinta burro ante o que lhe apresentam? Não seria o fato do excesso de conceitos e teorismos levados por alguns aos meios de comunicação como sendo necessidade para que as pessoas adentrem aos teatros? Não seria a super valorização e a imposição de que o público tenha que assistir a espetáculos excessivamente experimentalistas?

Onde ficou a relação do ator com o seu público?

Sim, porque teatro se constitui na relação entre aquele que apresenta e aquele que assiste. Fazer teatro sem querer público, não é fazer teatro, é um equívoco de gênese. Se o público deixou de frequentar os espetáculos teatrais, talvez seja pelo fato de que os novatos que chegam ao mercado, trazem consigo conceitos que não refletem a realidade da práxis teatral e da importância do seu diálogo com os espectadores. Ou o que alguns produzem e conceituam como sendo teatro, na realidade não é e o público sabe disso.

Leva-se tempo para discernir e se dar conta do que é teatro de verdade e o que está no plano onírico. O mundo das ideias, deixamos para aqueles que apenas podem habitá-lo. No entanto, o mundo do teatro deve trazer consigo um fator primordial: levar o diálogo e a relação direta com o seu público, da forma mais pura e genuína como deve ser, por meio dos atores, suas histórias e o universo imaginário de seus espectadores.

Portanto, para fechar esse assunto aqui, já que esse blog se destina a trazer textos sobre críticas de espetáculos artísticos, re enfatizo a necessidade de ouvirem novamente às palavras da grande Fernanda Montenegro nesse vídeo: http://youtu.be/KMQzG1jpavU

Vagner Vargas
Apenas um ator.