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sexta-feira, 31 de maio de 2013

Maturidade, Talento e Ética no Teatro: A Cia Pelotense de Repertório


Era um domingo, 16 de setembro de 2012, chuvoso e frio, típico do final de inverno em Pelotas. Porém, essa não foi a desculpa para manter um expressivo número de pessoas em suas casas assistindo aos enfadonhos programas de televisão exibidos nos canais abertos. Motivados pelo anúncio do novo espetáculo de teatro da Companhia Pelotense de Repertório, muitos espectadores resolveram aproveitar o dia para apreciar essa estreia.

Uma das novidades, se referia ao fato do local da apresentação se dar no João Gilberto Bar, um espaço até então não explorado pelas artes cênicas pelotenses. Este espaço já tradicional e conhecido na região por suas festas e shows musicais, abriu suas portas para um novo filão de mercado: o teatro.  A este fato, devemos saudar o pioneirismo da Cia Pelotense de Repertório por estar abrindo caminho para quiçá um novo espaço fixo para apresentações teatrais em Pelotas. Obviamente que, dada a estrutura do local, os espetáculos teatrais que ali possam vir a ser encenados precisarão ser específicos a esse contexto.

O primeiro fato que chamou a atenção, foi o número de espectadores, pois eles, apesar de em grande número, representam ainda uma pequena parcela de pessoas que possam vir a buscar esse tipo de entretenimento em dias e locais fora dos usuais. O fato da proposta da Companhia ser para apresentar seu espetáculo em bares, já agrega um potencial interessante e atraente ao público, pois, além de irem apreciar uma obra teatral, também podem dispor do conforto e dos serviços que um bar e restaurante possa lhes oferecer e, após a apresentação, confraternizar com o elenco e frequentadores do local.

Esse fato permite que os espectadores se sintam motivados a saírem de suas casas para assistirem a uma peça de teatro, já que sabem que não irão se deslocar a um local geralmente insalubre, onde deverão permanecer horas em pé, no frio e com pouca ventilação, como alguns grupos de teatro crêem como única alternativa para apresentações em espaços “alternativos”. A necessidade de buscar novos locais para manter a arte teatral viva na cidade de Pelotas se faz necessário, uma vez que o único teatro público da cidade permanece fechado há mais de 2 anos pela atual gestão municipal.

O segundo aspecto que me despertou o interesse na plateia, foi a faixa etária dos espectadores. Comumente, costumamos ver adolescentes e adultos jovens nas plateias dos teatros. No entanto, para esse trabalho da Cia Pelotense de Repertório, observei que a maior parte do público era composta por pessoas de meia idade e idosos. Também devemos prestar atenção a essa situação, pois isso mostra além de uma empatia dessas pessoas ao excelente trabalho do grupo de atrizes que estava se apresentando, demonstra ser uma fatia de público pouco explorada pelos artistas de teatro nos dias de hoje.

Nesse dia, a Cia apresentou o Stand up Comedy 4.5 A Toda Potência. O espetáculo, apesar de dialogar com o estilo tradicional das comédias em pé norte americanas, possui um enredo, com momentos em que cada uma das personagens vai contando a sua história, outros onde dialogam entre si e com a plateia. O texto criado por Joice Lima, que também assina a direção, foi criado a partir de situações e histórias pessoais das atrizes e de pessoas que colaboraram para a criação da peça de teatro. Com ótimas sacadas em tom de humor, as atrizes Joice Lima, Ana Alice Muller, Neusa Maria Khun, Márcia Monks e Val Fabres vão revelando as problemáticas e vivências de mulheres que já passaram dos 40 anos.

Talvez, esse seja um dos aspectos que tanto gerou empatia e identificação da plateia que se fez presente. Foi muito prazeroso observar os espectadores se divertindo, gargalhando e comentando com seus amigos sobre as situações que as personagens iam revelando. Temáticas como amor, adultério, solidão, fantasias sexuais e o amadurecimento foram abordadas no tom certo durante a construção dramatúrgica do espetáculo. Gostaria de salientar a ótima sacada do elenco ao aproveitar o espaço onde estavam se apresentando para dialogarem com os espectadores de maneira mais próxima, quebrando as barreiras entre o “espaço do artista” e o “espaço da plateia”.

Além disso, a intimidade, talento, carisma e  entrosamento das atrizes permitia que o enredo fosse se desenvolvendo de uma maneira muito leve. O tempo de comédia estava na medida certa para as situações que as personagens viviam, o que estimulava ótimas gargalhadas ao público presente.

Com certeza, foi um final de domingo muito agradável a todos que foram assistir ao espetáculo 4.5 a Toda Potência. Essa é apenas uma das diversas peças de teatro que a Cia Pelotense de Repertório possui e que costumam ser frequentemente levadas aos palcos.

A maturidade cênica do elenco representa um dos fatores de destaque dessas artistas, não somente pelo respeito que demonstram com os seus espectadores ao oferecerem espetáculos que sejam agradáveis, mas também, por considerarem o conforto e bem estar de quem lhes assiste. Isso, faz com que o público se sinta respeitado e valorizado pelos artistas e não pareça que o artista está fazendo um favor aos espectadores e por isso devam ir a qualquer lugar, com qualquer estrutura para assisti-los.

O público carece de entretenimento e espetáculos de boa qualidade. O número expressivo de pessoas na plateia desse dia ressalta a necessidade da oferta artística que contemple não apenas essa faixa etária, mas também às pessoas que desejam sair de suas casas e viverem momentos agradáveis em contato com a arte.

Portanto, recomendo para quem ainda desconhece os trabalhos da Companhia Pelotense de Repertório, que guarde bem esse nome e procure assistir aos seus espetáculos que constantemente circulam pela região. Além disso, reforço o valor do empenho, ética e respeito que esses artistas matem na criação de suas peças de teatro.

Vagner Vargas
Ator DRT: 6606
Crítico de Teatro

segunda-feira, 13 de maio de 2013

O Lugar do Negro no Teatro Brasileiro Contemporâneo





Atualmente, com o avanço das discussões sobre a discriminação étnica e das Leis anti-racismo, a população negra começou a reivindicar os seus direitos perante à sociedade brasileira. No entanto, no que se refere ao mercado de trabalho para atores negros, apesar de terem ganho um pouco de visibilidade, esta ainda é ínfima, comparada à proporção de negros no contingente populacional brasileiro.

Embora algumas pessoas justifiquem que estejam vendo mais atores negros nas telenovelas fazendo personagens que não sejam apenas de escravos, motoristas, criminosos e empregadas domésticas, o padrão estético determinado pela grande mídia para a escolha desse elenco se pauta em traços de beleza caucasianos. Essas características são bastante discretas, mas vão desde à tessitura vocal ao formato de nariz, cabelos, tom de pele, tipo físico e etc... Além disso, os personagens costumam vir carregados de uma justificativa étnica para lá estarem, ou seja, se for um médico negro, haverá um conflito em torno da cor de sua pele, não sendo possível que apenas seja um médico que por ventura é negro.

 Outra justificativa que os defensores da mídia podem utilizar, se refere ao fato de que existem muitos atores negros em evidência na televisão brasileira. Porém, comparando a realidade étnica brasileira e a diversidade que se observa nas ruas, você continuará pensando que a proporção de atores negros na TV reflete à realidade brasileira? Ou será apenas uma obrigatoriedade para cumprir uma mera quota de conformismo com as oportunidades igualitárias? Será que os negros não geram audiência e consumo? O que ocorrerá no dia em que os negros resolverem ter a coragem para mudar de canal e buscarem uma programação que realmente os inclua e os trate de maneira igualitária?

No entanto, meu foco aqui não se direciona à TV. Todavia, não podemos falar sobre oportunidades de trabalho para atores negros, sem citarmos as mídias de massa. Nesse sentido, ainda refiro os personagens negros que atualmente aparecem no cinema nacional. As mesmas reflexões que citei anteriormente se referem à sétima arte. Contudo, acredito que, no que tange aos personagens, o cinema brasileiro ainda está um passo atrás, já que grande parte dos filmes brasileiros colocam o negro apenas numa situação marginalizada. Não quero dizer com isso que essa realidade não seja verossímil. Porém, será que é a única?

Quando falamos em teatro, o ponto de análise se altera, pois as imposições midiáticas não chegam a afetar a grande produção teatral. Entretanto, no que se refere ao teatro comercial, em especial àquele produzido no grande eixo Rio-São Paulo, as normatizações estéticas da televisão costumam determinar as escolhas de elenco. Apesar disso, devido ao caráter democrático que o teatro costuma apresentar, temos a possibilidade de ver um contingente maior de atores negros em cena. Mesmo assim, a proporção de atores brancos costuma ser maior.

Essa situação nos leva a refletir sobre quais motivos tornam esse fato uma realidade. Obviamente, não podemos deixar de ter em mente que há séculos a população negra sofre um processo de discriminação, exclusão e marginalização étnica em nossa sociedade. Além disso, apenas há algumas décadas estão ocorrendo avanços civis sobre esse assunto. Nesse sentido, devemos sempre ponderar sobre as oportunidades num sentido global, uma vez que envolvem aspectos que não se relacionam somente ao mercado de trabalho artístico, mas também à educação, moradia, saneamento e etc... Muitas pessoas podem contestar dizendo que esses fatores não estão diretamente relacionados ao desempenho profissional no teatro. Todavia, devemos ponderar que, do nosso confortável ponto de análise, as condições sociais podem ser as mesmas para quaisquer etnias. No entanto, ao colocarmos o advento histórico nessa balança, será que não teríamos um lado étnico mais sobrecarregado?

Desse modo, a luta pela sobrevivência e pelo espaço igualitário na sociedade acaba levando os negros a buscarem alternativas mais imediatas de subsistência. Além disso, as oportunidades artísticas costumam estar localizadas em pontos sociais distantes da realidade dessas pessoas não somente no aspecto geográfico, como também de identificação. Talvez os motivos que expliquem o pouco contingente de atores negros nos palcos brasileiros, em relação à proporção populacional, estejam ligados a esses fatores.

Sob esse ponto de vista, também gostaria de salientar a escassez de uma produção dramatúrgica voltada ao teatro que contemple temas relacionados à etnia negra que não sejam aqueles que falem apenas de sua marginalização social, escravidão ou as mesmas abordagens dadas pela TV e pelo cinema nacional. Da mesma forma que os gregos e outros tantos povos souberam transformar suas mitologias em teatro, a mitologia brasileira, de origem africana também deveria receber esse tratamento.

Obviamente, que os fatos históricos, a colonização brasileira e os conceitos ainda arraigados em princípios de uma moralidade religiosa dos tempos em que o Brasil ainda não era um estado laico segundo à Lei, abarcaram todo um processo de opressão para manter a cultura negra longe dos limites história oral. Nesse sentido, acredito que essas histórias ainda precisam ser escritas e firmadas na dramaturgia teatral brasileira.

Porém, gostaria de salientar que esse discurso não está demarcando o ramo de atuação dos negros para espetáculos que abordem suas origens étnicas e  religiosas. Muito pelo contrário, acredito que esse pode ser um dos caminhos de identificação para atrair uma fatia de público que costuma estar à margem das histórias que lhes são apresentadas e a partir daí, quem sabe, oportunizar-lhes uma perspectiva de identificação e auto-estima. Além disso, também acredito que os atores negros devam lutar pelo seu espaço para fazerem personagens que não venham com a descrição “negro” no texto original, pois se a característica étnica não é o conflito principal daquele personagem em determinada história, não existem limitações para que apenas as pessoas de origem caucasiana tenham o direito de representá-los.

Contudo, não podemos deixar de ponderar sobre o aspecto de que sempre é colocado sobre os ombros da população negra a responsabilidade por lutarem pelos seus direitos e espaços na sociedade. Esse ponto de vista é confortável e cômodo aos indivíduos de outras origens étnicas, uma vez que, numa análise simplista, não precisariam alterar em nada suas condutas sociais e profissionais para permitirem a igualdade de direitos e oportunidades para todos os cidadãos. Desse modo, reitero o foco desse texto ao mercado teatral para os atores negros no Brasil, uma vez que não devemos jogar a responsabilidade da pouca proporção de atores negros nos palcos, apenas ao fato deles não lutarem pelo seu espaço nesse mercado de trabalho. Essa seria uma visão alienada e ingênua. Cabe sim aos espectadores negros exigirem sua retratação nos palcos, aos atores negros terem o seu devido espaço, mas acima de tudo, aos artistas que trabalham nesse mercado abrirem as oportunidades para que os personagens sejam tratados apenas como seres humanos. Sendo assim, a origem étnica do profissional que o interpretará será desconsiderada, já que o personagem será tratado pela sua essência humana.

No entanto, não quero que as duas últimas frases do parágrafo anterior sejam distorcidas, uma vez que essa foi a justificativa para que durante muitos anos atores brancos maquiassem a sua pele com o intuito de interpretarem personagens negros. Quando falo em personagens negros, me refiro a histórias em que o contexto étnico dessa personagem se torna a essência de seu mote conflitual. Realmente, o palco é o lugar mais democrático, onde todos artistas podem ser quem a história precisar que eles sejam. Mas, isso não quer dizer que esse argumento se torne uma justificativa para enfatizar o processo de exclusão social de raiz étnica que temos em nosso país. Sendo assim, quando o foco da existência daquele personagem não for o conflito social gerado em função da sua etnia, não haveria justificativa para que os personagens fossem pensados numa lógica caucasiana. Com isso, enfatizo que a escassez de atores negros nos palcos também se deve à necessidade de mudança na perspectiva que os próprios artistas do teatro têm em relação aos personagens das peças de teatro.

Portanto, gostaria de finalizar esse texto, em que levantei algumas reflexões sobre o lugar do negro no teatro brasileiro contemporâneo, reiterando a necessidade de que sua história e tradições sejam tradas com o respeito e a importância que merecem, sem olhar vertical determinado pela a cultura caucasiana nos palcos, TV e cinemas do Brasil. Além disso, também saliento o fato de que os negros precisam fazer valer o seu valor como geradores de consumo, audiência e presença na sociedade. Dessa forma, acredito que a ponderação sobre os fatos aqui levantados possam ser apenas alguns poucos pontos de vista que nos levem a refletir sobre número de atores negros que vemos nos palcos brasileiros.

 Vagner Vargas
DRT – Ator – 6606 – Crítico Teatral.

Texto publicado em 02/10/2012

Porto Alegre Em Cena e um Público Ávido por Teatro



Em sua décima nona edição, esse festival internacional de artes cênicas invade a capital e, mais uma vez, firma o seu sucesso, como um dos eventos culturais mais importantes do Brasil. De 04 à 24 de setembro de 2012 serão apresentados diversos espetáculos de dança, teatro, música, oficinas, cursos, palestras, workshops, exposições e etc...

Para quem puder se deslocar até à capital do nosso estado ou para aqueles que lá estão, não faltarão opções sobre o que assistir. A edição desse ano traz vários espetáculos do Uruguay, além de trabalhos vindos da Israel, Argentina, Portugal, Alemanha e França. Obviamente, esse festival não se faz apenas com espetáculos estrangeiros, o público ainda tem a possibilidade de assistir diversos trabalhos oriundos de vários estados brasileiros, nos oferecendo um panorama diversificado da produção artística que foi selecionada pela curadoria do Em Cena.

Nos dias em que lá estive, me surpreendi com o tamanho das filas para entrar nos teatros, além das muitas pessoas que, como eu, se aglomeravam em frente às bilheterias pra comprar ingressos de última hora. Realmente, conforme a organização do evento informou no material de divulgação, as bilheterias não abrem na hora dos espetáculos para a venda de ingressos naquele momento. Apenas as pessoas que já haviam comprado as entradas pela internet estavam retirando os seus tickets. Porém, como todo grande evento, sempre são distribuídos muitos ingressos cortesias, algumas pessoas também acabam comprando em excesso, ocorrem desistências e etc... Nessas situações, esses lugares costumam ser vendidos ou até mesmo ofertados pelos próprios espectadores àquelas pessoas que não compraram seus ingressos com antecedência.

Nos teatros por onde circulei e nos postos de vendas de ingressos, observei que o público queria muito ir ao teatro, mesmo sem conhecer o trabalho que seria apresentado, o seu desejo se refletia apenas pelo prazer de irem ao teatro. Somente esse aspecto já nos ilustra o quanto a população gosta de frequentar eventos culturais e do quanto eles lhes são importantes. Entretanto, não podemos esquecer que estamos em ano eleitoral e a cultura não costuma entrar nos discursos dos políticos, nem mesmo ser incluída com ações específicas para implementar, fomentar e oferecer dignidade de trabalho aos profissionais dessa área.

A cultura não oferece emprego apenas para os artistas e profissionais técnicos envolvidos nos espetáculos, todo o comércio local lucra com os turistas que se deslocam até esses espaços, além do mercado informal que se forma à volta dos teatros, proporcionando trabalho e fonte de renda a diversas famílias. Com certeza, Porto Alegre ganha muito durante o Em Cena, não apenas no aspecto comercial, mas também na oferta cultural aos seus moradores e visitantes.

Infelizmente, existem poucas cidades no Brasil onde ocorre uma comunhão de ações como essas para incentivar a cultura e oferecer tantos espetáculos à população. Alguns poderiam justificar a ausência desses eventos devido ao alto custo que uma produção dessas envolve. Entretanto, com trabalho e muita força de vontade se consegue obter o devido sucesso. Porém, para que isso seja possível, há a necessidade de vontade política, investimentos da iniciativa privada, abertura e apoio da mídia, além de mão de obra competente para organizar um festival dessa dimensão. Também não podemos deixar de destacar que o Porto Alegre Em Cena não iniciou nas proporções em que hoje está. Um evento desse tamanho necessita uma construção eficiente e sólida ao longo dos anos. Aqui, nos fica exposto o seu sucesso consolidado como um dos eventos culturais mais importantes do país.

Além disso, ouvi algumas pessoas reclamando dos valores cobrados pelos ingressos, pois, segundo elas, estavam muito altos e a grande maioria da população não teria condições de arcar com esses custos. Sempre que ouço esse tipo de declaração, eu me pergunto sobre os valores que as pessoas pagam para irem aos estádios de futebol, festas, baladas, nos gastos que têm com bebidas alcoólicas, cigarros, alimentação e transporte nesses locais. Porém, não costumamos ouvir as pessoas dizerem que não vão em tal boate ou estádio de futebol porque os custos totais dessa ida serão muito altos. As pessoas economizam, juntam dinheiro, ou até mesmo pagam, sem reclamar. Entretanto, quando falamos em eventos culturais, esse tipo de argumentação sempre vem à tona, trazendo consigo uma falsa justificativa de que os eventos culturais são elitistas.

A cultura, nesse caso as artes cênicas em geral, empregam muitos profissionais e esses trabalhadores necessitam ser remunerados dignamente pelas atividades que desenvolvem. Quando um espectador está pagando para assistir a um espetáculo, ele não está entregando o seu dinheiro em vão, ele está contribuindo com o salário de todas as pessoas envolvidas naquele trabalho que está ali sendo apresentado e lhe propiciando entretenimento, diversão, reflexão, conhecimento, cultura e etc...

Bom, termino esse texto por aqui, pois em breve trarei novas “notícias do front” e as minhas percepções sobre os espetáculos que assisti. Além disso, não posso deixar de terminar esse texto sem pedir aos leitores que, quando forem votar nesse ano, pensem e reflitam bem, se o candidato que estão escolhendo lhe representa e se suas propostas não são meras promessas de campanha para iludir a todos com os chavões antigos de caça votos fáceis. A minha bandeira é a cultura e assim sempre será, pois acredito nas contribuições positivas que ela propicia à sociedade como um todo. Agora, entrego a vocês essas reflexões.

Vagner Vargas
DRT – Ator – 6606 – Crítico Teatral.

Texto publicado em 10/09/2012

Texto Alemão Trazido ao Palco pela Nova Cena Teatral Gaúcha




Na medida em que o tempo passa, além da tecnologia avançar, o modo como nos relacionamos com o mundo vai acompanhando essas alterações. Além da velocidade de informações a que somos submetidos diariamente, os valores que lhes atribuímos, geralmente, acabam sendo direcionados pelas lógicas de mercado, mídia e etc...

Um dos assuntos relacionados a isso, se refere à excessiva importância que as pessoas dão à aparência física. Obviamente que, aí está impregnada toda uma ideologia que escraviza os consumidores a sentirem-se inferiorizados por nunca atingirem um ideal de perfeição estética, tendo, assim, que vir a comprar fórmulas milagrosas, as quais lhes trarão o tão sonhado sucesso estético.

Problemáticas como essas podem ser observados no texto do escritor alemão Marius Von Mayenburg, autor da peça “O Feio”, apresentada dia 17 de agosto de 2012, no Teatro do COP, pela Ato Cia Cênica, de Porto Alegre/RS. Nesse espetáculo, o autor questiona os significados da alteridade inserida nas lógicas de mercado contemporâneo, satirizando a sociedade e refletindo sobre a individualidade funcionando como obstáculo pra se obter sucesso nos dias de hoje. Nessa trama, o protagonista recorre a uma cirurgia plástica com o intuito de mudar a sua aparência totalmente, já que os outros lhe consideravam feio. Após a cirurgia, o personagem se torna esteticamente belo aos olhos dos outros e essa “fórmula da beleza” um atrativo de lucro para o cirurgião plástico que passa a produzir “belos” em série.

O dramaturgo dessa peça costuma trabalhar juntamente com o encenador Thomas Ostemeier e suas propostas de diálogo cênico com as mais diferentes expressões artísticas. Facilmente encontrávamos influências do encenador alemão na concepção cênica da diretora Mirah Laline. O que foi apresentado no palco do Teatro do COP nos mostrava um forte trabalho de marcação de cena, com ações muito precisas, coesas dentro da proposta estética, em um ritmo extremamente acelerado. O fato do espetáculo ser conduzido em uma cadência veloz não o tornava perdido e vazio. Muito pelo contrário, mesmo com toda a velocidade de informações, a diretora conseguiu imprimir algumas nuances de ritmo durante a peça, com isso, o espectador não conseguia se afastar do que estava sendo contado, nem tampouco se sentir incomodado com o bombardeio de situações que iam ocorrendo.

Um espetáculo muito bem dirigido e concebido, assim podemos definir “O Feio”. Parte desse mérito também está reservado à sintonia cênica do elenco formado por Danuta Zaghetto, Marcelo Mertins, Paulo Roberto Farias e Rossendo Rodrigues. Não há o que se possa pontuar na atuação dos atores, a não ser elogios. O texto da peça não é fácil de ser dito, são muitas informações, com subtextos que oferecem várias possibilidades reflexivas. Para que as mensagens consigam atingir aos espectadores da maneira como se deseja, devem ser passadas num time correto e isso o elenco conseguiu de sobra. Não vou sublinhar uma ou outra performance dos atores, pois o elenco está nivelado, todos brilham ao mesmo tempo, sem haver destaques, o que propicia um espetáculo que atinge o sucesso no todo.

O trabalho que os atores levam à cena não é nada fácil. Aliás, o que vemos é fruto de um árduo e dedicado preparo físico. Não apenas no vigor e dinamismo corpóreo que o elenco mostra em cena, mas também a forma como dizem os textos. Apesar do ritmo ser acelerado, a boa dicção e a compreensão do que está sendo dito favorece o resultado estético do espetáculo. Da maneira como escrevo, essas ações podem até parecer simples, mas não o são. Para obtermos um resultado desse nível em cena, necessitamos de muito preparo, disciplina e, acima de tudo, trabalho. O elenco composto por atores bastante jovens soube utilizar a sua energia e disponibilidade para atribuir todos os adjetivos positivos que esse espetáculo merece.

Os figurinos de Marina Kerber estavam muito de acordo com a proposta estética da peça, além de contribuírem para a criação de uma identidade visual do espetáculo. Além disso, a concepção de iluminação de Lucca Simas e Luciana Tondo, esta última também responsável pela operação de luz, criou um ambiente sombrio, pesado e taciturno como a problemática do protagonista exigiria. Ademais, a maneira frenética como a luz dialoga com o ritmo corporal dos atores lhe atribui um papel essencial na concepção de dramaturgia cênica.

A trilha sonora pesquisada pela diretora Mirah Laline e operada por Manu Goulart continha várias músicas de hard rockalemão muito pertinentes ao espetáculo. Além de outras canções que dialogavam com o texto e propunham um distanciamento crítico e bem humorado em alguns momentos.

Também não posso deixar de elogiar a direção e direção de fotografia dos vídeos criados por João de Queiróz e Maurício Casiraghi, este último também responsável pela projeção deles durante o espetáculo. A projeção de vídeos vem sendo muito utilizada em alguns espetáculos contemporâneos, o que pode vir a funcionar como um colorido a mais na criação cênica. Entretanto, esse recurso deve ser usado com cautela para não ficar gratuito, ou apenas reforçando o que se está fazendo ao vivo, ele deve dialogar dinamicamente com a cena, senão perde o sentido.

Porém, a maneira como foi utilizado no espetáculo “O Feio”, estava muito adequada, foi um acerto da direção. Além do fato dos vídeos terem sido muito bem produzidos, eles ofereciam ao espectador um diálogo com o universo interno do protagonista. Não posso deixar de destacar o momento em que o personagem sente a vontade de pular do prédio. A sincronicidade entre o ator e o vídeo foi ótima, um profundo diálogo entre cinema e teatro, dando um aspecto de grande realidade, chamando muito a atenção do público que não deixou de se manifestar positivamente durante essa cena.

Portanto, considero que o espetáculo “O Feio” foi um grande presente ao público pelotense não apenas pela sua apreciação estética, mas também por vermos artistas tão jovens já despontando em um trabalho muito bem realizado. Além disso, não posso deixar de render louvores à iniciativa do SESC em oferecer ao público um panorama da produção cênica universitária do Rio Grande do Sul.

 Vagner Vargas
DRT – Ator – 6606 – Crítico Teatral.

Texto publicado em 20/08/2012

Ensaio Sobre a Repetição




Em uma perspectiva de mundo contemporâneo, repleto de informações múltiplas e simultâneas, muitas vezes o ser humano se vê perdido nesse meio, ou passa a somatizar esses problemas, revertendo-os em transtornos psicofísicos. A rotina sem questionamentos e criticidade pode levar as pessoas a uma automatização do seu dia a dia. Entretanto, havendo a percepção da repetibilidade factual diária, o indivíduo necessita de força, disposição, coragem e boa vontade para mudar os acontecimentos de sua vida.

Situações relacionadas a essas temáticas foram expostas no espetáculo “Ensaio Sobre a Repetição”, apresentado no dia 17 de julho de 2012, na Bibliotheca Pública Pelotense, pelo Grupo Barraquatro, de Porto Alegre/RS. Com direção de Júlia Rodrigues, trilha sonora executada ao vivo por Rodrigo Pereira, Tomás Dornelles Piccinini, Ettore Sanfelice e, no elenco, Sofia Vilasboas e Carolina Pommer, a peça conta com uma dramaturgia elaborada a partir de improvisações relacionadas a histórias pessoais das atrizes e fragmentos de textos de Fernando Pessoa, Sarah Kane e Gabriel Garcia Marquez.

A peça reflete sobre padrões de aprendizado, comportamento, suas reprodutibilidades, hábitos cotidianos e relações sociais. A maneira como o texto é conduzido nos leva a ponderar sobre qual a singularidade ou autoria dos nossos atos em sociedade. Seriam eles originais ou meras repetições? Muito embora se possa fazer esse tipo de leitura sobre a proposta do grupo, ela não fica evidentemente ilustrada no espetáculo, já que, por vezes, a dramaturgia fragmentada em demasia, pode desviar a atenção do espectador para o excesso de ações cênicas.

O fato de a direção ter optado por uma repetição de partituras de ações que se prolongam durante o espetáculo, utilizando garrafas como elementos que constroem o espaço cênico, foi um bom achado. Essa peculiaridade, trazia à tona um caráter neurastênico às personagens e não muito distante de alguns comportamentos sociais comumente observados nos dias de hoje. Além de oferecer uma perspectiva estética diferenciada, as garrafas ajudam a compor a “colcha de retalhos” que compõe o espetáculo.

A trilha sonora executada ao vivo se mostrou como um fator agregador positivo ao resultado do trabalho. Os músicos intervinham nos momentos corretos, totalmente concentrados no que estava sendo contado em cena. Além disso, a trilha favoreceu muito a comunicação entre a proposta estética, trabalho corporal das atrizes e sua relação com os espectadores.

As duas atrizes, apesar de bem jovens, conseguiam segurar a história, imprimindo-lhe ritmo, empatia e diálogo com os espectadores. Fica bem claro que o grupo realiza um trabalho com embasamento em alguma das vertentes do teatro físico, uma vez que, se as atrizes não dispusessem dessa formação, não conseguiriam imprimir o vigor técnico que levam para a cena. O frescor da juventude e da imaturidade cênica conseguem funcionar com combustível para mostrar aos espectadores a felicidade, força, garra e vontade que todos aqueles jovens artistas estão tendo em levar essa história até o contato com o público.

Porém,  faltou profundidade na abordagem das temáticas apresentadas pela maneira como a dramaturgia estava disposta. Essa qualidade não é uma característica que os bancos acadêmicos, livros e cursos nos trazem por si só. Eles nos servem como repertório, mas a maturidade cênica e de vida, como um todo, nos propiciam outras percepções e significados sobre cada palavra que estamos dizendo no palco e isso transparece ao espectador com muita intensidade.

Portanto, gostaria de deixar como último registro a felicidade de assistir a esse espetáculo em um espaço tão belo, como a Bibliotheca Pública Pelotense. Além de estarmos inseridos num espaço histórico, o local oferece plenas condições para que espetáculos de teatro, dança, música e performance possam ser ali apresentados. Ademais, também acredito que esse possa ser um meio para fazer com que o público pelotense volte a frequentar a sua biblioteca pública, não apenas como um espaço de leitura e pesquisa, mas como um centro cultural capaz de abrigar as mais diferentes formas de expressão artística.

 Vagner Vargas
DRT – Ator – 6606 – Crítico Teatral.

Texto publicado em 19/08/2012

Contando Histórias no Teatro Musical Infantil




                Ao primeiro olhar, trabalhar para crianças pode parecer fácil. No entanto, o público infantil é dos mais difíceis de conquistar. Por esse motivo, peças de teatro direcionadas a esses espectadores necessitam de um cuidado redobrado, ainda mais quando se propõe a ser um musical.

                O texto a seguir tratará do espetáculo “A Sopa de Pedra”, sob autoria de Tatiana Belinky, trazido  Pelotas, no dia 31 de março de 2012, pelo Grupo Luz e Ribalta, da Cooperativa Paulista de Teatro. O elenco é formado por Luiz Amorim, Níveo Diegues, Theodora Ribeiro, Renato Comi e Erick Chica que tratam de dar vida aos personagens da história cantando e executando músicas a vivo. O espetáculo conta a história de dois amigos músicos, cansados e famintos que encontram no meio do caminho, a casa de uma senhora idosa e avarenta. Logo de cara, os dois artistas tentam ludibriar essa senhora para que eles possam ficar ali, enquanto descansam e ela os alimenta. Obviamente, a idosa não se deixa enganar e acaba aplicando várias peças nos dois mambembes, em uma trama recheada de situações engraçadíssimas, permeadas por uma trilha sonora encantadora.

                Competência, essa é a palavra que melhor defino o trabalho desse grupo. Realmente, vemos um espetáculo coeso que foge dos estereótipos infantis e propõe uma maneira de contar essa história que traz o público pra dentro da cena. Essa é uma tarefa bastante complicada, uma vez que, em se tratando de crianças, a sinceridade na resposta é franca e direta. O que pudemos observar, foram crianças felizes e extremamente atentas ao que lhes estava sendo apresentado. Claro que esse resultado só foi possível, pois os atores além de terem um carisma imenso, souberam como envolver o público presente. Esse tipo de identificação e conexão entre artista e espectador costuma ocorrer quando há verdade naquilo que está sendo representado. O termo que utilizo aqui se refere à verossimilhança das personagens em cena. Nesse caso, a reverência deve ser feita ao trabalho competente de todos que compõem o Grupo Luz e Ribalta.

                Além de interpretarem os personagens da peça, os atores também cantam ao vivo, enquanto se dividem na execução instrumental das músicas. Particularmente, aprecio muito quando podemos ver o trabalho dos músicos desvelado em espetáculos teatrais com a trilha sendo apresentada ao longo da peça. Esse tipo de peculiaridade, poderia distanciar e quebrar com a impressão de fantasia e universo imaginário que as crianças desenvolvem ao assistirem a uma peça de teatro. Entretanto, quando bem feito, o efeito é inverso. O público infantil sabe muito bem ler todas as informações e signos que lhes são expostos e, no caso dessa peça, a música ao vivo serviu como um catalisador da boa recepção teatral.

                Bom, quando falo nas músicas, não posso deixar de citar que os arranjos foram muito bem compostos e, também, obtiveram o mesmo sucesso quando foram cantados. A diversidade de situações que acontecem nos bastidores de um espetáculo e o contato dos atores com o público, poderia levá-los às armadilhas da desafinação ou a semitonar as entradas de algumas músicas. Todavia, isso não foi observado. Gosto de salientar esse tipo de situação, pois acredito que, para cantar numa peça de teatro, não basta apenas ao ator querer ou ser “afinadinho”, ele tem que ter técnica para tanto e saber que, mesmo um ouvido não musicalisado, tem condições de perceber quando uma música é mal cantada. No caso de “A Sopa de Pedra”, o elenco está de parabéns pela sua performance musical.

                A única ressalva que eu faria nesse espetáculo, se refere aos figurinos e cenário de Carlos Colabone que me pareceram um tanto quanto pesados. Quando falo em peso, estou fazendo referência à paleta de cores utilizadas no todo da composição do visagismo cênico. Acredito que os tons terrosos imprimiam uma percepção monocromática do universo daquelas personagens. Porém, essa é apenas uma sensação particular minha, uma vez que não posso negar que havia uma extrema coerência na proposta de ambientação cênica. Além disso, também acredito que não precisamos transformar figurinos de peças infantis em fantasias coloridas de escolas de samba, pois isso seria subestimar a percepção estética das crianças. Ademais, concordo que, na medida em que o figurino assumiu um papel discreto dentro do espetáculo, o trabalho dos atores se sobressaiu e colaborou para dar veracidade ao todo da concepção cênica. Volto a salientar que os figurinos eram funcionais, lindos e imprimiam identidade aos personagens, apenas pesaram um pouco aos meus olhos. Contudo, não podemos negar de que se trata de um trabalho muito competente.

                Portanto, aqueles que tiveram o prazer de assistir a esse espetáculo numa tarde de sábado, saíram do Teatro do COP encantados com uma ótima apresentação de teatro infantil. Além disso, considero de extrema importância que os pais levem os seus filhos ao teatro, não apenas para terem um contato direto com um espetáculo, mas também por estarem contribuindo na formação de um indivíduo mais crítico e com um repertório estético de mundo diferenciado dos demais.

 Vagner Vargas
DRT – Ator – 6606 – Crítico Teatral.

Publicado em 13/08/2012