Espetáculos
de ópera continuam tendo um público expressivo independentemente da cidade em
que sejam apresentados. Alguns preconceituosos e desconhecedores dessa
linguagem artística podem comumente proferir comentários considerando-a
ultrapassada ou desinteressante aos espectadores contemporâneos. Entretanto, seus
parcos argumentos vêem de encontro à postura do público pelotense.
A
relação histórica de apreço que o público de Pelotas tem com a ópera permanece
forte até os dias de hoje. Nos últimos anos, nossa cidade tem recebido
espetáculos de ópera pelo menos uma vez ao ano, com a plateia lotada e a
corrida por ingressos faz com que eles se esgotem em poucas horas após serem
disponibilizados aos espectadores.
Essa
situação também foi observada para a ópera Il
Campanello, de Gaetano Donizetti, apresentada em 16 de janeiro de 2013, no
Theatro Guarany, dentro da programação do III Festival Internacional SESC de
Música. Essa peça é considerada como sendo uma das mais engraçadas de Donizetti
e conta a história de Enrico, um homem que promove diversas peripécias para
atrapalhar a noite de núpcias de sua amada Serafina, com o farmacêutico Don
Annibale. Apesar do conteúdo divertido da história escrita pelo autor italiano,
o que vimos deixou muito a desejar no quesito comicidade.
A
regência do espetáculo esteve a cargo do excelente Evandro Matté, responsável
pela condução da Orquestra Unissinos Anchieta. Como solistas tivemos a soprano
Luísa Kurtz, o baixo Saulo Javan e o barítono Douglas Hahn. Não me aterei à
qualidade musical desses artistas, pois o preparo técnico tanto dos
instrumentistas, quanto dos cantores e do próprio regente são impecáveis e perceptíveis
a quaisquer pessoas, assim como a competência musical de todos esses profissionais.
No
entanto, apesar do experiente e competente Luis Paulo Vasconcelos ter dirigido
essa ópera, o resultado final pecou no que se refere à verossimilhança cênica.
Mesmo fazendo esse comentário, gostaria de salientar o meu profundo apreço,
admiração e respeito pelo trabalho de Luis Paulo Vasconcelos, um dos mais
importantes diretores, atores e teatrólogos do nosso estado. Porém, não somos
obrigados a acertarmos sempre e até mesmo os grandes cometem erros. Raramente,
mas também podem cometê-los.
Outro
fato que gostaria de destacar se refere ao elenco de atores que compunham as
cenas. Alguns deles são experientes atores, com sólida carreira reconhecida no
teatro e cinema gaúcho. Entretanto, o que víamos em cena era um excesso. Um
exagero em querer parecer engraçado, em querer ser expressivo. Alguns dos
figurantes pareciam querer se mover o tempo inteiro no palco, sem saberem o
objetivo de tal fato. Em outros momentos, havia uma super atuação no que se
refere à tentativa de busca da provocação do riso fácil.
Apesar
dos cantores serem excelentes, percebia-se que eles haviam sido orientados a
buscarem um tipo de comicidade que está ultrapassada nos dias de hoje e, na
verdade, não fica nada engraçado. Além disso, o restante do elenco se mantinha
em cena na linha do over acting. Mas,
não que isso esteja de acordo com a proposta e sim porque estavam exagerados
demais. A provocação forçada de piadas com situações atuais e regionalismos
forçados perdia o time de comédia e
não funcionava em momento algum.
Infelizmente,
devo dizer que a responsabilidade por tais situações são do
diretor que pecou nesse quesito ao conduzir o seu elenco a um estilo de atuação
e resoluções cênicas que não funcionam mais nos dias de hoje. Talvez, esse
estilo de interpretação funcione em alguns programas televisivos considerados
de humor. Mas, no teatro não funcionam.
A
iluminação foi um capítulo à parte. A impressão que eu tive foi de que o
iluminador não fazia a menor ideia do que estava fazendo na mesa de luz. O fato
de a luz estar vazada e mal afinada foi pouco perto de algumas situações que
ocorreram. Em certos momentos alguns moving
lights ligavam e conduziam o foco pelo palco, sem terem relação nenhuma com
a cena, muito menos com a localização do elenco. Além disso, por várias vezes,
o iluminador errava o foco que deveria acender para a cena que estava
acontecendo.
A
cenografia me pareceu ser re aproveitada de outro espetáculo. Estava poluída,
em dissonância com a proposta. Ela mais parecia estar ali para preencher o
espaço cênico, do que para serem funcionais ao contexto da história.
No
primeiro momento em que o elenco apareceu em cena, as maquiagens e figurinos me
deram um susto. A impressão que tive foi de que haviam assaltado os guarda
roupas dos brechós que ainda guardavam as relíquias dos figurinos de filmes do
Almodóvar dos anos oitenta. Não havia uma proposta para o figurino. Não
bastasse o mal gosto e o exagero gratuito dos vestidos excessivamente
brilhosos, a impressão que dava era de que eles haviam sido alugados em algum
brechó a esmo, ao invés de terem sido concebidos por um figurinista para esse
espetáculo. Se a intenção era situar a peça no interior de uma boate dos anos
oitenta, toda a concepção do espetáculo deveria ter sido feita com esse intuito.
Porém, não foi o que observamos.
Apesar
da visão equivocada com que o visagismo do espetáculo foi concebido, a história
divertiu os espectadores mais pelo seu conteúdo e pelos excelentes cantores, do
que pela poluição visual que observávamos em cena. Esses aspectos são muito
importantes de serem observados quando falamos em uma ópera, pois ela não é um
espetáculo de músicas apenas. Uma ópera é uma peça de teatro musical e, como
tal, deve ter todos os elementos que compõem a cena concebidos com a mesma importância
que desprendemos à técnica vocal dos cantores ou à perfeita execução dos
músicos instrumentistas da orquestra.
Exemplos
de excelentes espetáculos de ópera existem em diversos países, como as
dirigidas por Robert Lepage, as montagens do Metropolitan de New York e em
diversos países europeus. No Brasil, apesar do volume de montagens de
espetáculos de ópera ainda serem discretos, dado o seu custo operacional, o
interesse e procura do público é imenso. Por esse motivo, gostaria de ressaltar
a necessidade dos diretores, regentes, músicos, técnicos, cantores e elenco
desses espetáculos prestarem a atenção na qualidade o produto cênico que estão
oferecendo aos seus espectadores.
Agora,
vamos torcer para que as próximas óperas que venham a ser apresentadas em
Pelotas estejam impecáveis, como o público pelotense e os artistas da cena merecem.
Também espero que, com a consolidação desse importante festival internacional
de música que movimenta nossa cidade no verão, nas próximas edições além das
óperas também possamos contar com espetáculos musicais nos moldes dos
encontrados na Broadway. Acredito que será de grande valia tanto ao evento,
quanto aos espectadores, a presença de espetáculos que aliem o canto –
demandando uma técnica diferenciada do erudito tradicional voltado às óperas -,
excelentes composições musicais, bailarinos e atores que possam transitar por
todas essas habilidades, como observamos nos espetáculos musicais
contemporâneos.
Vagner
Vargas
DRT
Ator: 6606
Crítico
de Teatro
Caro Vagner.
ResponderExcluirAdorei ler tua crítica sobre o espetáculo Ceu e Terra. Concordo absolutamente com tudo. Sei que temos um material muito bom para trabalhar. Infelizmente, como acontece com alguns espetáculos que estão há muito tempo na estrada, a acomodação, as trocas de elenco, a não manutenção do cenário, adereços e figurinos faz com que tudo se deteriore. Esse espetáculo precisa ser reciclado, atualizado. Está sujo, cheio de cacos. Devemos investir em material e ensaios. Essa falta de cuidado me incomoda e muito, mas minhas insatisfações sempre esbarram nas verbas e desinteresse da direção e elenco para reensaiar, redescobrir, se comprometer.
Enfim, vou tentando mudar enquanto aguentar fazer parte da brincadeira. Estou com um espetáculo em cartaz, A Mulher do Padeiro. Volto em fevereiro de 2014 na Cia de Arte em Porto Alegre. Adoraria saber tua opinião sobre a peça. Meu email é evandro.soldatelli@hotmail.com.
Abraço!
Evandro Soldatelli
Oi Evandro
ResponderExcluirMuito obrigado pelo retorno. É muito bom ouvir o feed back de quem lê os meus textos. Te responderei por e-mail.
Abraços
Perfeito, como sempre!
ResponderExcluirComo cantor profissional concordo em todos os aspectos, bem como lamento o ocorrido!
Oi João
ExcluirMuito obrigado pelo retorno!
Abração